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David Byrne regressou ao seu país natal para trabalhar na banda sonora de mais um filme, “Young Adam”. Por seu turno, os Pastels, não precisaram de sair de casa para compor e gravar a música para “The Last Great Wilderness”. O que liga estes dois filmes? O mesmo realizador, David MacKenzie. Do outro lado do Atlântico, está para chegar “Lost In Translation”, o novo de Sofia Coppola, mas a banda sonora já pode ser ouvida.

Há bandas sonoras que tornam um filme grande sem se deixarem cair no protagonismo excessivo, sem ofuscar a nossa atenção e distraí-la do desempenho dos actores e do guião. É o que acontece com a banda sonora do filme escocês "Young Adam", comissionada a David Byrne (também ele natural do país dos castelos e dos “lochs”), que dirigiu para o efeito um ensemble de músicos de Glasgow, ligados a algumas das mais importantes bandas da efervescente cena indie rock local: Barry Burns (Mogwai), Richard Colburn (Belle & Sebastian), Johnny Quinn (Snow Patrol), Una McGlone (Future Pilot AKA), Malcom Lindsay (The Delgados) e Alasdair Roberts (Appendix Out), entre muitos outros, além do próprio ex-Talking Heads.

O filme, realizado por David MacKenzie, a partir de um romance de 1954 do escritor beat escocês Alexander Trocci, acompanha a transformação na vida do jovem Joe (Ewan McGregor), a bordo de uma barca de carga entre Glasgow e Edimburgo, numa Escócia de há meio século atrás, filmada de maneira tão sombria quanto o carvão que é transportado entre as duas cidades. A escassez de diálogos é complementada de forma subtil pelas tensões eróticas que se desenvolvem dentro e fora da barca ao longo de todo o filme, com a música a marcar um delicado papel – pela finura das cordas, essencialmente, a qual por vezes lembra o trio norte-americano Rachel's – coisa praticamente rara no novo cinema britânico, frequentemente dado a incursões mais berrantes na música popular. Por oposição, a banda sonora de “Young Adam” encaixa nos critérios mais clássicos da música para cinema, com a repetição natural, nem sempre óbvia, daquilo a que podemos designar por tema, ao longo do filme e do próprio disco, embora a abordagem, essa, tenha sido pouco canónica – é o próprio Byrne que conta que pediu aos músicos para ensaiarem frases a partir de um conjunto limitado de notas, para cada cena específica, história que já nos havia sido confirmada por Barry Burns, dos Mogwai, em entrevista na edição anterior da Mondo Bizarre. Filme e disco terminam ambos de forma soberba, com Byrne a cantar "The Great Western Road". Só isso bastaria para que esta fosse a excelente banda sonora que é. Antes de realizar “Young Adam”, David MacKenzie estreou-se em 2002 no formato de longa duração com “The Last Great Wilderness”. É com esse nome que os Pastels, uma das mais antigas bandas da cena indie rock de Glasgow, fizeram sair este ano, através da sua editora Geographic, a banda sonora do mesmo filme. Assiste-se também aqui à repetição de um ou outro tema, de forma mais fragmentada que no caso anterior, mas ainda assim, algo a que os ouvidos habituados a bandas sonoras não estranharão.

Ao longo destes vinte e cinco minutos podem escutar-se ainda duas canções propriamente ditas, uma versão para “Everybody Is A Star”, de Sly And The Family Stone, e “I Picked A Flower”, com o ressuscitado Jarvis Cocker na voz. Para o fim, fica a banda sonora de “Lost In Translation”, o novo filme de Sofia Coppola. Nos antípodas dos casos anteriormente abordados, porque é mais uma compilação de canções do que propriamente uma colecção de ambiências ou fragmentos sonoros, facto que poderá ser explicável à luz da diferente natureza dos próprios filmes, “Lost In Translation” recupera algumas das velhas pérolas do shoegazing, de “Just Like Honey”, de Jesus & Mary Chain”, a “Sometimes”, de My Bloody Valentine. Por falar em My Bloody Valentine, aparece também no disco Kevin Shields, que contribui com quatro faixas. A responsabilidade pela escolha e organização desta banda sonora recaiu sobre Brian Reitzell, baterista dos Redd Kross (lembram-se?) que tem vindo a colaborar com os Air (também eles estão aqui com o tema inédito “Alone In Kyoto”) em digressões, além de os ter ajudado na banda sonora do filme anterior de Sofia Coppola, “Virgin Suicides”. Além das rememorações, o melhor do disco recai sobre a faixa escondida, onde o actor Bill Murray canta uma versão karaoke para “More Than This”, dos Roxy Music...

Vítor Junqueira
(Mondo Bizarre # 17)