ACUARELA
SUAVES SONS DE NINAR
O que torna uma editora do país vizinho tão apelativa para os portugueses? Talvez os discos belamente melancólicos que edita. A Acuarela é um arquivo inesgotável de melopeias tristes e frágeis pronto a ser descoberto.
A Acuarela nasceu pelas mãos de Jesus e Victor Lenore, dois velhos conhecidos de andanças musicais. Primeiro foram parceiros num fanzine de nome Malsonando e depois numa aventura mais séria, a Spiral. A Spiral era uma publicação em formato parecido com o dos tablóides, essencialmente virada para o universo independente. Findo o sonho Spiral, que deixou raizes na imprensa espanhola, veja-se o caso do Mondo Sonoro (ideia semelhante mas revista à luz da actual situação e que faz a ponte entre o alternativo e algum mainstream), o par mergulhou numa nova criação. E a novel experiência, a Acuarela, seguiu as pisadas da Spiral mas optou por cingir-se a um universo ainda mais circunscrito e muito especial.
Assim, desde 1993 que a editora sediada em Madrid tráz à luz do dia uma panóplia de bandas e compilações onde imperam as sonoridades introspectivas e as toadas compassadas e melancólicas. A filosofia da Acuarela é a de que a música dita indie não acenta forçosamente na fúria das guitarras mas sim na máxima punk: DIY (Do It Yourself). De par com canções como as de Nacho Vegas, que bebem no caudal Serge Gainsbourg existe a electrónica dos Vitesse e a frágil folk/”americana” dos Aroah. E claro, as mil camadas de tristeza dos Sr. Chinarro e a visão do deserto cruzado com a saudade dos Migala. Visão essa que atraiu as atenções da lendária SubPop acabando o grupo por ver “Arde” editado, o ano passado, nos EUA.
E nem a saida de Victor Lenore abalou a determinação de Jesus. Tudo na Acuarela permanece rigoroso e, ao mesmo tempo contra a maré. Quem diabo, senão alguém de uma teimosia a toda a prova, escolheria editar EP’s em tempos de tão grande volupia económica onde a vontade de fazer crescer os dividendos se sobrepõe tantas vezes aos ideais e à beleza da criação? Pois para que não restem dúvidas sobre os propósitos estabelecidos pelos seus fundadores, a Acuarela acaba de editar uma mão cheia de EP’s magnificamente “encapados”.
Chris Brokaw & Viva Las Vegas, Sodastream, Aroah, Spokane, Aroah/Natcho Vegas e Retsin são, desta vez, os contemplados. Estas seis propostas dão uma amostra da diversidade sonora que se alberga nesta editora: as delicadas canções dos Aroah são um misto de Sundays e Cowboys Junkies; os Spokane escolhem a o lado menos denso das trevas e apresentam-se com leveza e doçura mesmo quando se lançam numa versão de “All We Ever Wanted Was Everything”, dos Bauhaus; para os Sodastream fica a linhagem Bonnie Prince Billy e Smog; o duo Retsin (do qual faz parte Tara Jane O’Neil) opta pela “americana” saltitante com laivos de canção infantil e vozes que se podem catalogar junto das de Neko Case e Shannon Wright; no EP compartido por Aroah e Nacho Vegas oscila-se entre o cabaret e a planície e finalmente Chris Brokaw & Viva Las Vegas trazem música de arestas ásperas, reminiscente dos Shellac.
Mas há mais. Um LP dos Viva Las Vegas, um dos Vitesse e uma compilação dupla. Ufa!!!! Viva Las Vegas é a banda formada por dois membros dos Manta Ray. José Luis Aguado e Frank Rudow dão corpo a uma tapeçaria de sons que partem de conceitos experimentais mas que acabam por se revelar canções pop de fino recorte. Isto se não estivermos a pensar em pop galhofeira e bem disposta, é claro.
Outro caso singular são os Vitesse. A primeira coisa que vem à memória ao ouvir-se os Vitesse são os Joy Division ou os Sétima Legião de “A Um Deus Desconhecido”. Depois começa-se a reparar em muitas referências do período “urbano depressivo” de finais dos anos 70, início dos anos 80. O mais curioso é que a dupla Hewson Chen e Joshua Klein é americana. Não parece possível tanta contenção, tão pouca euforia e uma atmosfera tão gélida e indústrial vinda de um país, os EUA, onde a velocidade e o rebuliço parecem imperar. Mesmo sabendo-se que Chen e Klein se conheceram na Universidade de Chicago (e sendo esta uma cidade de indústria e de temperaturas não muito elevadas) as únicas localidades cujos nomes parecem encaixar na música deste “What Can Not Be, But Is...” são Berlin (versão Bowie de “Low” e “Lodge”) e a Manchester de desolados, mas belos, edifícios de tijolo vermelho. Mas se se resistir a julgamentos precipitados acaba-se a ter uma visão menos redutora do terceiro longa duração dos Vitesse. Afinal ao lado do cinzento surge o azul profundo de algumas canções. E a estranhesa aumenta ao descobrir-se que uma das versões do disco é de um tema de Bruce Springsteen. A outra é dos Orchestral Manouvers in the Dark.
A cereja no cimo do bolo deste lote de edições da Acuarela é a compilação dupla “Acuarela Songs”, embrulhada num luxuoso digipack, cujo título bem podia ser “Madrid, Arizona”, ou “Alternative Nashville, Madrid” tal é a profusão de nomes ligados ao “alternative country” e à “americana” presentes. De Howe Gelb aos Willard Grant Conspiracy, passando por Amor Belhom Duo, Dakota Suite, Mark Eitzel, Knife in the Water ou Mojave 3, “Acuarela Songs” é uma das melhores compilações representativas de um género que é afinal, tão diversificado como qualquer outro. Mas seria injusto não nomear também Doug Hoekstra, Magic 12 e Tracker, que surgem como autores de um belo trio de canções.
A par da edição de discos a Acuarela vem, desde há um par de anos, também publicando livros de qualidade tanto literária como estética E a lista de escritores é tão, ou mais impressionante do que a de músicos. A colecção da Acuarela Libros abre com “Panegírico” de Guy Debord e segue com “La Aventura Africana” de Fernando Savater, “El Barco del Norte” de Philip Larkin ou “La Exigencia Revolucionaria” de Cornelius Castoriadis. As edições mais recentes são as de “Dream Police” de Denis Cooper e “Renacimiento” de Michel Houellebecq.
As edições da Acuarela são distribuidas em Portugal pela Sabotage.
Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 10)
| | |