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ANN SHENTON / ANA DA SILVA
ANAS EM COLISÃO ELECTRÓNICA FEMININA (VERSÃO 2004)
Ann e Ana. Ana e Ann. Uma esteve nos Add N To (X), a outra nas Raincoats. Esta ano editaram respectivamente “The Electronic Bible Chapter 1” e “The Lighthouse”, dois discos onde a electrónica assume muitas formas.

A música electrónica tem sido um género em que poucas mulheres se têm aventurado – apesar da forte expansão que o género conheceu nos anos 90 –, ao contrário da área do pop-rock, onde a presença feminina sempre foi uma constante. Certamente este fenómeno tem muito a ver com o facto da música electrónica ser essencialmente instrumental, recorrendo muitas vezes a um imaginário tipicamente masculino, quer no culto do DJ nas pistas de dança, quer na presença fortemente maquinal que acontecia nos Kraftwerk. Simplesmente não parecia haver muito espaço para uma sensibilidade que fugisse ao simples apelo da dança ou ao fascínio das máquinas. Ainda assim, ao longo do tempo, diversas produtoras foram aparecendo com novas propostas, como Mira Calix, Neotropic ou Andrea Parker.

As coisas só começaram verdadeiramente a mudar quando a pop começou a apropriar-se novamente da electrónica, na onda de revivalismo dos anos 80, que caracteriza o electroclash. As Chicks On Speed, estiveram, de certa forma, na liderança desse movimento feminista, trazendo grupos como as Le Tigre ou os DAT Politics para uma ribalta quase a raiar o mainstream. No lado mais introspectivo da indietrónica, apareceram também os Lali Puna liderados por Valerie Trebeljahr, e tornou-se óbvio que as mulheres tinham chegado à electrónica e estavam a trazer algo de novo. Chegamos a 2004 e surgem álbuns de Ann Shenton [ex-Add N to (X)] e Ana Da Silva (ex-Raincoats, agora amadrinhada pelas Chicks On Speed). Ann Shenton foi certamente uma das pioneiras femininas na electrónica. Ex-membro do trio Add N To (X), Ann é uma exímia instrumentista fascinada por instrumentos electrónicos antigos como os Moog ou o Theramin. Mais importante ainda, os Add N To (X) foram uma banda fundamental na integração do rock mais experimental da época (pós-rock?) num contexto electrónico, buscando inspiração no krautrock dos Neu! ou Can; na electrónica divertida de Jean Jacques Perrey ou de Raymond Scott; no underground sórdido das bibliotecas de sons de filmes pornográficos e no rock de uns Cramps e de uns Suicide (se não no som, pelo menos na atitude).

A extinção dos Add N To (X) foi o resultado natural de um projecto que explorou o que tinha para explorar, e Ann Shenton virou-se imediatamente para um projecto a solo adoptando o nome Large Number [titulo de uma canção dos Add N To (X)], lançando no ano passado “Spray On Sound”. Neste primeiro álbum de originais o fascínio pelo retro é exacerbado por sons que parecem vir directamente de um estranho clube nocturno dos anos 70. Com muitos ecos de Raymond Scott pelo meio, é um álbum simultaneamente experimental e divertido quanto baste para o tornar quase pop.

Este ano, e depois da aparição no Festival Número, em Lisboa, Ann Shenton propõe uma colectânea ironicamente chamada de “The Electronic Bible Chapter 1”, o que parece ser uma espécie de resposta à compilação de temas antigos de electrónica “Connectors” do ex-companheiro dos Add N To (X), Barry 7. Só que para Ann Shenton faz tanto sentido o presente/futuro quanto o passado, e é assim que na sua compilação marcam presença nomes como Sean O’Hagan dos High Llamas (e colaborador assíduo dos Stereolab) ou Richard H Kirk, dos cabaret Voltaire (sob o pseudónimo Pat Riot). Entre o retro e o noise futuristas Ann Shenton não conhece barreiras, apontando diferentes perspectivas musicais.

A presença de Ana da Silva na editora das Chicks On Speed é uma daquelas coisas que deve dar mais prestigio à editora que à artista. Presença fundamental da new-wave no início dos anos 80 através das Raincoats, a portuguesa Ana Da Silva atravessou uma fase de semi-obscurantismo até que um dia Kurt Cobain a redescobriu numa livraria de Londres.

De pioneira da new-wave a exploradora de novos sons com um instrumento electrónico digital, que lhe caiu nas mãos, vai apenas um pequeno passo. E é fácil de perceber que algo assim seria inevitável acontecer quando se ouve “The Lighthouse”, o seu novo álbum. Pegando num passado que não se deita para trás assim tão facilmente, a sonoridade das Raincoats e dos Young Marble Giants aparece recontextualizada num novo mundo digital, explorando as possibilidades de fazer canções dentro das perspectivas que o novo brinquedo abriu para Ana da Silva.

Curiosamente, em muitas canções, “The Lighthouse” lembra “Scary World Theory” dos Lali Puna, e não é só por causa de algumas canções serem cantadas em português. Tal como os Neu! e os United States Of America foram bandas importantíssimas para os Stereolab e Broadcast, os Young Marble Giants e Laurie Anderson são a grande fonte de inspiração dos Lali Puna e de Ana da Silva. Os arquétipos do passado são usados então em “The Lighthouse”, permitindo a produção de um som mais acessível para os ouvintes desejosos por canções e pouco adeptos das paisagens sonoras da música instrumental.

Até que ponto o impacto da sensibilidade feminina vai ser importante na electrónica só o futuro dirá. Para já as duas An(n)as distinguem-se por um universo pessoal completamente aparte dos seus pares. No fundo a boa música não conhece géneros sexuais: brota de pessoas que sentem que têm algo para dizer ao mundo.

César A Laia
(Mondo Bizarre # 21)