ANITA LANE
SUSSURROS SEXUAIS
Longe das estéticas mais experimentais e densas que sempre caracterizaram o seu trabalho, a charmosa, sombria, doce-amarga Anita Lane demonstra-nos que tanto o seu talento como a sua sensualidade (mas também a sua amargura) continuam em alta em "Sex O'Clock". Para nosso deleite, em todos os sentidos...
Desde sempre associada ao "universo Nick Cave" seja em relação aos Birthday Party, seja aos Bad Seeds que ajudou a fundar, Anita Lane sempre encarnou uma certa imagem de femme fatale, de musa inspiradora quase que demoníaca no seu jeito felino e simultaneamente frágil, ímpar no seu carácter de "chanteuse" requintada e atormentada. E foi exactamente em membros ou antigos membros dos Bad Seeds que desde sempre encontrou os parceiros musicais ideais para dar azo à sua criatividade, nomeadamente Mick Harvey, que em "Sex O'Clock" uma vez mais (a sua presença é também fundamental em "Dirty Sings" e "Dirty Pearl") desempenha um papel essencial na exteriorização sonora de conceitos e ideias musicais e na competência a nível de arranjos e de produção aqui presentes.
E não devem ficar surpreendidos com o groove descontraído, por vezes dançável e sempre deliciosamente pop que caracteriza "Sex O'Clock", pautado por subtis mas quase omnipresentes batidas disco-sound que se fazem acompanhar de sincronizados e belíssimos crescendos de violinos e por rasgados e sujos teclados, isto não esquecendo ainda a electricidade das guitarras e as vigorosas malhas de baixo. Este sólido e coeso perfil musical ilustra perfeitamente as divertidas nuances vocais de Lane, de cujos muito sensuais sussurros não se podem dissociar as temáticas sexuais aqui tão características em temas como "The Next Man That I See", "Do That Thing" ou o apelativo "Do The Kamasutra". Mas se divertidos são muitos destes temas, outros são amargos, sombrios e impregnados de sofrimento amoroso, revelando-se parte do reverso da medalha desse mesmo desejo sexual. São esses os casos de "Hate Myself", "Like Caesar Needs a Brutus" e do magnífico tema de abertura "Home is Where The Hatred Is", virtuosa versão de Gil Scott-Heron. Mas é sim em perfeita melancolia que terminamos, com "The Petrol Wife" e sobretudo com a lindíssima balada tradicional italiana "Bella Ciao" que Lane interpreta soberbamente ao som de um acordeão.
É por tudo isto e também pela singularidade do imaginário de Miss Lane, que recomendamos vivamente "Sex O'Clock", de preferência para escutar em ambientes mais íntimos...
Ana Gandum
(Mondo Bizarre # 9)
| | |