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ANTICON & LEX RECORDS
A Nova Anti-Lei
O universo do hip-hop experimental está expandir-se, algures no limiar da música electrónica com sabor indie e uma nova geração de emcees e produtores mais individualistas começam a colher os louros de marcar pela diferença. Adivinha-se que algo vai mudar com esta nova investida. Será uma revolução do hip-hop no seu todo? Teremos uma nova barragem de conceitos como ambient-hop, o regresso à estéril definição de trip-hop ou algo ridículo como nu-hop? Sabemos apenas que as inovações marcadas no passado por nomes como Dj Shadow, El-P e Cannibal Ox deixaram uma forte impressão nos deejays e emcees do amanhã. A encabeçar e organizar esta nova vaga que foge invariavelmente ao modelo negro, urbano e fechado do mainstream estão a Anticon e a Lex Records. Mais semelhantes do que diferentes com colaborações já em processo, a Anticon e a Lex reforçam a mudança com a estreia de novos projectos definindo uma filosofia e metodologia comum.

A Anticon continua em grande, emergindo lentamente da obscuridade para afirmar o seu lugar na vanguarda do hip-hop abstracto. Produtores experimentalistas e emcees perturbados podem em poucas palavras dar uma ideia inicial da filosofia da Anticon e da futura tendência do hip-hop alternativo no geral. Depois de ter introduzido nomes como Doseone, Sole e Buck65, surgem agora os trabalhos de Odd Nosdam e Why?, ambos oriundos do colectivo cLOUDDEAD.

No espírito e modus operandi da Anticon, Odd Nosdam está definitivamente no limiar da sonoridade esperada de um produtor de hip-hop, dotado de uma influência mais virada para o indie rock e ambient distorcido mantém sempre a mesma estrutura rítmica do seu género de eleição. “No More Wig For Ohio” é um álbum instrumental, talvez o mais importante lançado pela Anticon até agora que revela toda a extensão do talento, técnica e até insanidade do produtor. Um passeio musical saído de um leitor de cassetes perdido num sótão qualquer com samples de discos infantis e anúncios de TV do tempo dos nossos avós parece uma das maneiras de descrever este “No More Wig For Ohio”. Odd Nosdam recria o seu mundo de forma contínua e surpreendente sem nunca se tornar repetitivo. Mais um argumento de força para a posterioridade da Anticon.

Why? é Jonathan Wolf, um jovem pensativo emcee da Anticon que nos traz “Oaklanazulasylum”. A característica dominante de Why? encaixa perfeitamente na tendência da Anticon, um emcee extremamente introspectivo assumidamente oposto ao perfil modelar da sua profissão. Why? é essencialmente triste, obcecado com os traumas de infância, arrogantemente humilde e autocrítico cujo amor-próprio parece desaparecer com cada rima que lança. Liricamente, Why? tem uma voz e dicção exemplar e curiosamente, dentro da tradição da Anticon, acaba por ser o liricista mais acessível da editora, mais próximo do cânon do emcee mainstream. “Oaklandazulasylum” é uma autobiografia bem conseguida e um passo de prestígio para a Anticon. Ficamos com a impressão que Why? poderá futuramente triunfar no mainstream, faltando para isso um bom psiquiatra.

A juntar-se à Anticon nesta nova vaga de hip-hop chegou a Lex Records, filha da Warp Records. A Warp triunfou dentro da música electrónica com nomes como Aphex Twin, Squarepusher ou Boards of Canada, artistas que esbateram as barreiras da normalidade dentro do género electrónico. A Lex vem agora procurar fazer o mesmo com o hip-hop e temos já uma compilação dos seus primeiros anos e a estreia de uma estrela em ascensão, Tes.

“Lexoleum” é a compilação de estreia/abertura da Lex Records que reúne os primeiros três lançamentos da editora entre 2001 e 2002. Ficamos a conhecer os primeiros nomes da Lex como Boom Bip, Edan, Disflex 6, Peaches, Kid Acne e Madlib. Nomes da Anticon como Why? também marcam presença. As sonoridades variam entre as diversas fronteiras estilísticas do hip-hop e da electrónica, algo que se esperava de uma editora ligada à Warp. À primeira vista, “Lexoleum” é um grande cartão de visita para a Lex e ajuda a reforçar a proximidade com a Anticon, dissolvendo qualquer ideia de rivalidade entre as duas entidades.

Tes é o primeiro testa-de-ferro da Lex Records, um produtor e emcee oriundo do underground nova-iorquino, mais especificamente do círculo interno que viu surgir projectos como Aesop Rock, Cannibal Ox e Anti-Pop Consortium. “X2”, o álbum de estreia aparece já envolvido num clima de boato não fosse mencionado o nome de Prince como responsável pela gravação e mistura do álbum. “X2” pinta um quadro marcado por paisagens negras e minimalistas muito ao estilo da influência mais visível de Tes, RZA dos Wu-Tang Clan. Mas musicalmente, Tes está longe de estar limitado a esta comparação. Manipula bastante o acústico sabendo evocar um som mais funk na altura certa. Tes lembra-nos um Eminem com uma mestria para rimas ultra-rápidas e rasgos harmoniosos nos refrões, mas esta comparação também morre aqui pois ao estilo também presente na Anticon, a reflexão pessoal corroída por dúvidas, medos e inseguranças confere a alma às palavras de Tes. Advinha-se um futuro risonho para Tes em ambos os lados da cerca que divide o hip-hop entre o mainstream e o experimental.

Vasco Rebelo
(Mondo Bizarre # 16)