ATREYU
FÓRMULA (NÃO) RESOLVENTE
“The Curse” é uma das maiores apostas da Victory para o ano de 2004. Os Atreyu têm tudo para não desiludir os responsáveis da editora, contudo nós sentimo-nos meio defraudados, como que a comer um prato bem condimentado mas que esteve demasiado tempo ao lume.
Praticamente desconhecidos deste cantinho europeu o quinteto composto por Alex Varkatzas (voz), Brandon Saller (bateria e voz), Daniel Jacobs (guitara), Marc McKnight (baixo) e Travis Miguel (guitarra), é oriundo da Califórnia e formou-se no fim da década de 90. Os mais atentos reconhecerão o nome da banda, pois ele pertence à personagem que “guiava” o enorme cão no mítico filme dos anos 80 “Never Ending Story”. Personagem essa que, no filme, defendia o direito ao sonho. Os Atreyu até podem estar a concretizar o sonho deles, mas não lhes fazia mal nenhum transformarem um sonho turbulento, mas com tudo no sítio, em algo mais louco e imprevisível.
Neste “The Curse”, que sucede ao anterior e bem sucedido “Suicide Notes And Butterfly Kisses”, os Atreyu servem-nos, um upgrade sonoro mas mais limado do que o seu disco de estreia. Estão lá as guitarras com riffs à Iron Maiden e com toques de algum (treme) hair metal, a voz ora gutural ora melódica (cortesia do baterista) e o ritmo aqui pesado e veloz, ali melódico e previsível. E o problema é mesmo esse. O som do grupo mistura metal old school, hardcore, refrões a puxar para a pop e uma aura gótica, conseguindo ser apelativo e interessante.
Contudo bandas como os Atreyu personificam o tipo de bandas que “morrem na praia”. “The Curse” não é um mau disco, longe disso, mas padece do problema que é encontrar uma boa fórmula e levá-la à exaustão, o que o impede de ser bem melhor. A banda sabe escrever boas canções (destaque para “Bleeding Mascara”, “You Eclipsed By Me” e “Demonology And Heartache”) e possui uma boa cartilha de riffs interessantes, contudo o previsível desenrolar de algumas músicas, o facilitismo pop com os refrões a piscar o olho às rádios frustram o ouvido mais exigente, fazendo de “The Curse” um disco interessante, pontualmente bom mas apenas isso. Sem a excentricidade dos Glassjaw, a força dos Killswitch Engage, a versatilidade dos From Autumn To Ashes, a brutalidade dos Poison The Well ou a emotividade dos Finch, os Atreyu ficam com a classificação de competentes num campeonato cada vez mais popular e concorrido.
Muitas das revistas especializadas têm feito vénia a este segundo longa duração da banda californiana. No entanto, parecem esquecer-se que um bom disco (já para não falar de um muito bom) tem de possuir canções e capacidade para surpreender quem o ouve em doses muito superiores a este “The Curse”. Será difícil não reparar na miríade de bandas screamo/metalcore que vão enchendo as prateleiras das lojas e fazendo as delícias dos cibernautas mais curiosos. Mas como em todos os movimentos estilísticos há aquelas que são líderes e aquelas de quem ninguém se vai lembrar daqui a dois anos, quando a poeira assentar. Os Atreyu podiam chegar quase lá, mas por enquanto podem-se orgulhar de não lutar para descer de divisão.
Pedro Miguel Guimarães
| | |