AT THE DRIVE-IN
CAIXA DE PANDORA
Iggy Pop apadrinhou-os ao participar no seu novo álbum. A Grand Royal - dos Beastie Boys - assina a edição, e ainda há muito mais boas chaves para desencerrar a caixa de pandora que são os americanos At The Drive-In.
Aí está a "sensação da saison". Os At The Drive-In (logo seguidos pelos ... And You'll Know Us By The Trail Of Dead) são as grandes esperanças para o ressurgimento de um certo rock americano de tendência alternativa que parece ter de novo condições para florescer. Têm uns cortes de cabelo fantásticos, estão cheios de genica, têm a ambição e a disciplina (andam nisto desde 94 e já têm uma boa mão cheia de álbuns editados) para se tornarem grandes e acreditam profundamente na salvação pelo rock'n'roll. E já estão a convencer muito boa gente o que pode ser atestado pelos nomes sonantes inscritos no seu mais recente álbum "Relationship of Command" -"produced by Ross Robinson/mixed by Andy Wallace"-, o que se não é necessariamente um sinónimo da qualidade da sua música é pelo menos um bom indicativo de que esta não é banda para se ficar pelos obscuros becos da cena independente mais autista.
De facto, os At The Drive-In parecem bastante apostados em se tornarem visíveis e conseguirem sair do buraco mal-cheiroso que é a sua cidade natal, El Paso, no Texas. A sua música respira, pois, a urgência de quem quer agarrar a vida pelas goelas e não está para esperar muito mais. Entre um post-hardcore furioso mas cerebral de inspiração fugaziana e apontamentos de alguma melancolia, os At The Drive-In revelam-se como uma das bandas mais intensas da temporada, longe dos maneirismos do rock'n'roll mais cínico e atacando-lhe directamente a energia vital pela jugular. Mas com a sensibilidade suficiente para não deixar derrapar a sua música para um festival de gritaria e barulho.
Há, portanto, uma boa dose de violência sónica e verbal associada, ou isto não fosse rock, mas também aquele espírito suficientemente ingénuo e positivo para acreditar que essa catarse pode ser redentora. E que a intensidade sonora só é válida se lhe for associado um certo número de anti-climaxes. O que na prática significa que para além do ataque das guitarras de Jim e Omar e da voz cortante de Cedric também é possível encontrar por aqui um piano ou uma harmónica desgarrados em simples momentos de melancolia ou uma boa melodia insidiosamente colada a uma barragem de ruído. Tudo ingredientes clássicos do velho rock, é bem verdade, mas inflamados por aquela ambição e aventureirismo de quem não está muito interessado em soar a velho. E se o "hype" não for suficiente para convencer muitos adeptos, está aí a boa prova que é a audição de "Relashionship Of Command", definitivamente um dos álbuns mais fortes da temporada.
Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 5)
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