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BECK
BECK TO THE ROOTS
Há músicos por quem se desespera por um novo álbum. Simplesmente porque não se sabe muito bem o que vão fazer a seguir. Beck é sem dúvida um deles. Goste-se ou não, o mais difícil é ficar indiferente. Para aqueles que se sentem particularmente tocados pela sua faceta folk/country, "Sea Change" não podia vir em melhor altura.

"Sea Change" é o disco que apresenta uma revolução silenciosa na sonoridade de Beck Hansen, um songwriter cada vez mais maduro, que coloca a força da sua composição na simplicidade das letras, nas guitarras acústicas, na electrónica camuflada e na força dos elaborados arranjos, com as cordas a assumirem uma proeminência inaudita. O resultado desta complexa química é uma fabulosa colecção de 12 temas, todos eles candidatos a clássicos, que no seu todo apresentam o álbum mais encantado e pessoal de Beck. Nas palavras do próprio, "yes, these songs are more literal. They speak in a real, straight, colloquial voice. It's a more disciplined but rewarding approach to songwriting. I think the simpler songs are the most timeless".

A verdade é que estamos habituados a analisar (e vibrar) com as sonoridades que Beck impõe nos seus discos, mas em "Sea Change" a coisa muda de figura. São as canções, na sua componente literária, que fazem a diferença. O tom geral é de tristeza, ou antes de melancolia, num cruzamento entre e angústia ("These days I barely get by / I don't even try") e esperança ("Let the weight of the world / Drift away instead"), como se pode ouvir em Golden Age. Mas a ironia, como em tudo aquilo que Beck faz, não podia deixar de estar presente, com marcas visíveis em Guess I'm Doing Fine ("It's only lies that I'm living / It's only tears that I'm crying / It's only you that I'm losing / Guess I'm doing fine") e em Lonesome Tears ("How could this love / Ever changing / Never change the way I feel"). Há ainda espaço para os mesmos pesadelos de sempre em Nothing I Haven't Seen ("It's nothing that I haven't seen before / But it still kills me like it did before") e as mesmas contradições de sempre, como afloram os temas Round The Bend ("Life goes where it does / Faster than a bullet / From an empty gun") e Already Dead ("Days fade to black / In the light of what they lack"). Apesar do pessimismo que paira sobre todo o álbum, com particular expressão em Paper Tiger ("We're just holding on to nothing / To see how long nothing lasts") - a melhor composição de "Sea Change" e uma das melhores de Beck até à data - a verdade é que o músico não deixa de reconhecer que é sempre possível aspirar por algo melhor: "Something better than this / Someplace I'd like to go / To let all I've learned / Tell me what I know" (Side of the Road).

Para terminar em aberto, porque a música de Beck não admite conclusões fechadas, será que estamos perante uma nova era dourada para o músico, ou simplesmente um esporádico regresso às origens de quem parece estar farto de lutar por uma causa aparentemente perdida, como é perceptível em Lost Cause? Só uma coisa é certa. Estamos perante um disco sublime e de facto intemporal.

Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 13)