BELLE & SEBASTIAN
NOVAS AVENTURAS DE UM RELÓGIO SUIÇO
A história é demasiado conhecida por uma comedida minoria. De 1996 para cá, a música dos Belle & Sebastian é a materialização da felicidade. Uma felicidade que se conjuga em verbos não necessariamente felizes ou solarengos. Mas de uma fugaz e íntima luminosidade capaz de se tornar cúmplice e confidente de uma vivência em que a força da tentativa vale mais do que a prossecução de um objectivo mais ou menos pragmático.
“Tigermilk”, em 1996, anuncia uma turma de escola na ânsia de entregar o trabalho final de curso. Traços de uma subvalorizada pop telúrica dos anos oitenta (vide Talulah Gosh, Felt ou Field Mice) convivem pacificamente com o manifesto velvetiano facção Lou Reed. As letras, estórias minuciosas de percursos muito pessoais, rememoram o talento de Morrissey e as falsas evidências dos Smiths. A abertura ao exterior – “Tigermilk” não passou de uma edição limitada, em vinil, para uns quantos sortudos – dá-se, um ano depois, com “If You’re Feeling Sinister”, documento de maior consistência em que a escrita de Stuart Murdoch (o principal compositor da banda) dá à luz autênticos milagres de pop esclarecida como “Seeing Other People” ou “Like Dylan In The Movies”, canções escritas em função de uma unidade narrativa, nunca meros instrumentos ao serviço da eficácia de um refrão.
O culto intensifica-se. Actuações ao vivo, por esta altura, contam-se pelos dedos e a fama de reclusão cola-se à imagem dos Belle & Sebastian, contribuindo para um crescente interesse da imprensa que, sem surpresas, se rende ao álbum de 1998, “The Boy With The Arab Strap”, com o qual conseguiriam, inclusive, um improvável prémio Brit para banda-revelação. Às contidas confissões de “If You’re Feeling Sinister”, a banda escocesa contrapõe agora um disco mais ecléctico, que inclui a motownesca “Dirty Dream #2”, a pequena lenga-lenga para caixas de música “Sleep The Clock Around” ou a viciante e sumarenta “The Boy With The Arab Strap”. Os Belle & Sebastian deixam de ser encarados unicamente como um projecto de bandas-sonoras para vidas adolescentes em busca do ajuste ou do acerto e passam a ser vistos como banda capaz de construir pop de corpo inteiro, aliando a riqueza instrumental a uma tendência incontrolável para a gestação da melodia quase perfeita. Dos Orange Juice a Burt Bacharach pode ir apenas um pequeno passo e “Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant”, de 2000, acentua a tendência com a proeminência de cordas e orquestrações reminiscentes de um certo sinfonismo 60’s.
“Dear Catastrophe Waitress”, o mais recente registo da banda, vai ainda mais longe. Ao contrário de “Storytelling”, de 2002, não obedece ao regime de uma banda-sonora e aponta para direcções díspares, surpreendendo a sequência de temas pela variedade de referências neles inscrita. “Step Into My Office, Baby”, a abertura, é Elvis Costello vintage; “Dear Catastrophe Waitress”, o tema-título, evoca os Love de “Forever Changes”; “If She Wants Me” acentua o fascínio pela soul, num registo próximo de um Prince domesticado; “Piazza New York Catcher” recupera a pureza da folk cantautora, numa gravação em quatro pistas só com guitarra e voz; “Asleep On a Sunbeam”, da violinista Sarah Martin, é enriquecida pelos metais de Mick Cooke; “You Don’t Send Me” lembra músicas de genérico de glórias esquecidas da BBC como “Postman Pat”; “Roy Walker” e “I’m A Cuckoo” são bem sucedidas incursões no rock mais feérico; “Wrapped Up In Books” parece tirada de um disco dos Aislers Set, evocando as harmonias vocais e as guitarras dos Byrds e, por fim, “Stay Loose” é bizarria electroacústica de tons oitentistas para a qual, curiosamente, não contribuiu Trevor Horn, o produtor do disco.
Sem se poder falar numa progressão calculada ou numa evolução rumo a novos postos de comando, “Dear Catastrophe Waitress” representa, na carreira dos Belle & Sebastian, o ponto de rebuçado onde todas as variantes, nuances e colorações do grupo se concentram e não se inibem de se manifestar, uma a uma, em quadro colorido por pinceladas que, noutros quadrantes, seriam desavindas. É um disco de surpresas, sem medo da heterogeneidade, sem temer a diluição das diferenças num todo sem sentido. Pelo contrário, faz sentido porque é feito de mil partes. Faz sentido porque, provavelmente, todas elas transpiram Belle & Sebastian mas nenhuma delas reclama a identidade para se fazer valer. E o encanto dura mais uma temporada como se fosse fácil.
Luís Guerra
(Mondo Bizarre # 17)
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