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BELLE AND SEBASTIAN
UM SINISTRO COCKTAIL (I)LEGAL
Os Belle And Sebastian regressam com um EP "Legal Man" e um álbum "Fold Your Arms Child, You're Walk Like A Peasant". Stuart Murdoch continua a assobrar os discos do grupo escocês com os seus pequenos contos sobre criaturas solitárias e peculiares.

Os Belle And Sebastian gostam de singles. Antes de "Legal Man", disco totalmente à parte de "Fold Your Arms Child, You Walk Like A Child", houve a compilação "Lazy Line Painter Jane", que reuniu os anteriores singles da banda. E "Legal Man" pouco tem que ver com o tom instrospectivo do quarto longa-duração do grupo liderado por Stuart Murdock. Este é um trabalho de três temas, de ritmos swingantes e jazzisticos, cujo ambiente camp, bem patente no video de "Legal Man", é o de Londres ou Paris algures nos anos 60.

"Fold Your Arms Child, You Walk Like A Peasant" é mais um título dúbio. Será uma chalaça, ou uma advertência? Não se sabe. O mundo dos Belle & Sebastian tráz à memória um determinado género muito "british" que, até certo ponto, era o mesmo utilizado como referêncial pelos Smiths. As capas lembram, álias, as da banda de Morrissey e Marr. Espécie de réplicas de imagens desses velhos filmes britânicos como "A Taste Of Honey", "Spend, Spend, Spend" ou dessas fitas de tiros como "Get Carter". Mas a música não tem o entusiasmo dos Smiths. Os Belle & Sebastian são mais pacatos, prosaicos e em "Fold Your Arms Child,..." não conseguem sair da situação em que se colocaram com "The Boy With The Arab Strap". Ou seja, depois de dois primeiros disco quase perfeitos, o mágico "Tigermilk" e o delicioso "If You're Feeling Sinister", o grupo encerrou-se num gueto donde só parece sair nos EP's.

Não sendo brilhante, "Fold Your Arms Child,..." continua a fazer eco das misérias e explendores dessas personagens esquivas e reprimidas, tiradas das autoritárias escolas britânicas, que adoram ler e sonhar. Ou então, que se entretem a coleccionar amantes e a declarar as suas desafurtunas existências. Musicalmente, o disco navega numa mistura do "som" Belle & Sebastian, Felt, Nick Drake, pontuado por alguns vestigios de bandas sonoras vintage e canções francesas. Essa mistura de exótismo, de trovas cavaleirescas e da melhor linha da pop de guitarras britânica - Orange Juice, Aztec Camera, Smiths - revela-se em "The Wrong Girl", "Women's Realm" e "There's Too Much Love".

Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 4)