BLACK CROWES
JUVENTUDE LIONINA
Com o novo álbum, "Lions", os Black Crowes entram num novo ciclo criativo que os atira para um novo século sem vergonhas nem hesitações. Tradições são tradições, é bem verdade, mas os Black Crowes parecem dispostos a acrescentar-lhes alguma coisa.
Terminada a relação com a American Recordings de Rick Rubin (e por arrasto com a gigantesca Sony Music), e depois de alguns arrufos com a antiga editora - que levaram à edição do álbum "Live At The Greek" a meias com Jimmy Page (esse mesmo, o dos Zeppelin), os irmãos Robinson arrumaram a casa e voltam à carga com este "Lions". E o novo álbum faz juz à data que transporta afirmando-se como uma notável investida em frente para os Crowes. Com o suporte da nova editora, a V2, e a produção do experiente Don Was, o grupo da Geórgia regressa aos escaparates com uma brilhante colecção de canções enraízadas nas mesmas tradições de rhythm'n'blues e southern rock de sempre, mas com a perspectiva de quem está disposto a transportar essas raízes para o século XXI. Isto traduz-se num álbum que não se limita a reafirmar uma tradição mas que a cada esquina procura novas soluções com que renovar essa matéria bruta. O que significa que se, por exemplo, "Miracle To Me" e "Lay It All On Me" são boas baladas de veia sulista pura ou "Midnight From The Inside Out" é uma valente rockalhada à moda antiga, a verdade é que em "Ozone Mama" há um surpreendente arremedo de rap/funk e em "Cosmic Friend" espelha-se uma interessante inflexão para o psicadelismo. O que demonstra que os Crowes estão longe de estar esclerosados no recanto fechado das suas influências básicas e que ainda lhes passa imaginação suficiente pelos neurónios tendo ainda a força de vontade para a fixar em fita. Aliás, um álbum que a partir de metade do alinhamento rearranca para aquele que é o seu melhor conjunto de canções, é em definitivo o produto de uma banda em pleno potencial criativo, adivinhando-se ainda aqui o dedinho do produtor Was, reconhecido por conseguir trazer à superfície as melhores características dos seus protegidos.
Este estado de graça criativa torna ainda mais penoso o carisma que envolve a banda, o de eternos perdedores que parecem ter a possibilidade de a qualquer altura explodir para o mercado global com um par de hits respeitáveis, mas que se vêem sistematicamente arredados para o estável cantinho dos fans irredutíveis. E a falta que faz no "mainstream" uma banda que em simultâneo é capaz de demonstrar um profundo conhecimento das suas raízes na música popular e ao mesmo tempo ter uma postura tão irreverente em relação a elas. Ainda por cima quando a dupla de compositores é do calibre de Rich and Chris Robinson. Trocando a coisa por miúdos: "Lions" vale por uns quatro ou cinco álbuns dos Aerosmith, com custos muitíssimo mais reduzidos. Claro que não é para aqui chamado quem acha que este tipo de coisas faz parte dos ensinamentos básicos da música popular do século passado e que só com uns blipezinhos é que se anda para a frente...
Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 8)
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