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BLACK REBEL MOTORCYCLE CLUB
DA RESPIRAÇÃO URBANA
"B.R.M.C." é um sucedâneo de rock'n'roll e psicadelismo, retirado da melhor casta stoogiana e actualizado com reminiscências dos Jesus & Mary Chain, Stone Roses, Spacemen 3 e Ride. Da combinação de ambos os factores resulta o som aveludado presente no disco de estreia dos Black Rebel Motorcycle Club.

O passado relativamente recente desta formação remete-nos para 1995, ano em que os colegas de liceu Robert Turner e Peter Hayes se conheceram, em San Francisco. Mas seria apenas com a adição de Nick Jago para o lugar da bateria, três anos mais tarde, que passariam às actuações ao vivo. Na altura eram conhecidos como The Elements, sendo prontamente rebaptizados de Black Rebel Motorcycle Club, a designação do gang motorizado liderado por Marlon Brando no filme "The Wild One" de 1950. Em 1999, tinham já gravado um CD (cuja tiragem de 500 cópias foi rapidamente escoada nos concertos que iam dando) e mudaram-se para Los Angeles. A estação de rádio local de Santa Monica - a KCRW - deu-lhes o airplay inaugural e a BBC Sheffield elegeu a sua gravação de estreia "Record of the Week". Segue-se a habitual especulação por parte das editoras até que os Black Rebel assinam pela Virgin Records em Março de 2000. Após uma curta tournée pelos Estados Unidos com os Dandy Warhols, gravam o seu primeiro (e efectivo) longa-duração que seria editado no início do ano de 2001 mas que só agora chega a terras lusas. Desde então, têm andado em digressão com os Guided by Voices, os Charlatans, os Vue e os Warlocks, tendo participado na edição do ano passado do Sundance Festival. Há quem os coloque ao lado dos Strokes e dos White Stripes no projecto de reabilitação do rock (como se este alguma vez tivesse estado moribundo). No entanto, enquanto aqueles se inscrevem num demarcado revivalismo garage, os Black Rebel Motorcycle Club saúdam-nos com uma proposta sonora mais consistente e com laivos de intensa vivência urbana. É, então, disso exemplo este inflamado "B.R.M.C." O rastilho começa a insinuar-se em "Love Burns" numa tonalidade amarga ("now she's gone love burns inside me") para, mais à frente, despoletar a combustão sonora num tema de uma actualidade quase profética - "Whatever Happened to My Rock'n'Roll (Punk Song)". Num trabalho que foi objecto de uma produção bastante cuidada é interessante verificar a disparidade estética por onde viajam os temas nele encerrados. Porque é disso que se trata: composições encarceradas em casulos temáticos que esperam por uma réstia de luz para se libertarem. E a verdade é que conseguem a libertação - não lutassem as muito amplificadas guitarras e as batidas pujantes por uma mesma causa. Em "Rifles" o tom é soturno e carregado, desenvolvendo-se em torno de uma morte iminente, mas "Salvation" vem coroar de algum positivismo o encerramento do álbum. "Awake" existe como se o apocalipse fosse a génese e a insistência em "take me home" pudesse constituir-se num coro de enjeitados. Logo a seguir, "White Palms" filia-se no estado virulento do espírito humano ("I wouldn't come back if I'd have been Jesus/I'm the kind of guy who leaves the scene of the crime"). E porque nem todas as boas canções rock se deixam inundar de luz, "As Sure as the Sun" reveste-se de tons escuros e "Too Real" é a consumação de um estado de graça anunciado. Um álbum que adormece sob o néon estonteante e desperta à visão ruborizada da atmosfera pela aurora.

Helder Gomes