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BLONDE REDHEAD
LIMÕES DO CIMENTO
Uma japonesa. Dois italianos. Já actuaram ao vivo em Portugal e são mais um fruto sónico nascido no cimento da Big Apple. O último álbum é muito, muito bom e chama-se "Melody of Certain Damaged Lemons". Garante-se a descendência para o lado mais alternativo da música urbana.

Os Blonde Redhead são uma das mais novas esperanças a emergir da cena underground de Nova Iorque. Apesar de já terem vários álbuns no activo só nos últimos anos começaram a chamar as atenções a nível internacional, em particular com "In an Expression of the Inexpressible", de 1998, e mais recentemente com "Melody of Certain Damaged Lemons", desde já um dos bons candidatos à lista dos melhores álbuns de 2000. Isto para quem gosta, obviamente, de música urbana com nervo, mas também com boas referências e os neurónios no sítio.

A música dos Blonde Redhead não encaixa imediatamente em nenhum rótulo do costume, o que é desde logo um bom sinal. Há referências a Sonic Youth e Arto Lindsay - que lhes serviram de padrinhos enquanto eram imigrantes ilegais na América - e também Fugazi (Guy Picciotto produziu os dois últimos álbuns e chegou mesmo a cantar com eles na fabulosa canção "Futurism Vs. Passeism"), mas para além de nomes há uma construção sonora elaborada e ao mesmo tempo apelativa, há experimentalismo e um toque jazzístico e, sobretudo, boas melodias e uma voz expressiva e dinâmica. A voz de Kazu Makino, vértice principal num triângulo que tem como restantes extremos os irmãos Simone e Amedeo Pace.

E ao que parece é essencialmente da tensão existente entre estes pólos que se alimenta a economia músical dos Blonde Redhead. São poucos, e portanto as coisas mantêm-se simples, mas ao mesmo tempo há versatilidade, dado que repartem vozes, guitarras e outros instrumentos, nomeadamente teclas, o que significa que há contrastes e novas abordagens sempre a entrar em cena. Depois há uma intensidade emocional na sua música cada vez mais rara de encontrar neste ciclo descendente da pop que atravessamos. A proposta musical deste bizarro trio é construída essencialmente de momentos de pura melancolia entrecortados por explosões de electricidade, cascatas de guitarras em harmonia que de repente entram em rota de colisão e pequenos pedaços de esquizofrenia melódica que acabam por erigir uma amálgama de sons e emoções constantemente estimulante.

E a grande vantagem do novo álbum é a de que conseguiram ir muito mais longe neste caminho demonstrando agora uma muito melhor interligação destes extremos o que lhes permite definir uma sonoridade mais estável, mais personalizada e em último caso mais apelativa.

"Melody of Certain Damaged Lemons" é daquelas pérolas que surgem só de quando em quando e que fazem com que se continue a acreditar em saídas inteligentes para a música dos nossos dias. Para breve está marcada também a saída de "Melodie Citronique", um EP-rebuçado com versões em francês e italiano de alguns dos melhores temas deste álbum e ainda remixes e uns bónus inéditos.

Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 4)