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BLUR
A VIDA MODERNA É LUXO
“Think Tank” não é um álbum dos Blur. É o álbum que Damon Albarn, Alex James e Dave Rowntree decidiram fazer no intervalo de vidas ocupadas. Só que é muito bom. E contra factos há argumentos mas também há propostas de evidências: álbum do ano?

No mesmo ano em que os Stone Roses, saídos de Manchester, lançavam o seu histórico álbum de estreia dando à luz brilhantes construções pop/rock como “Elephant Shoe” ou “She Bangs The Drums” e fundando o que veio a ser denominado de cena “madchester”, na pacata cidade de Colchester outra banda, os Seymour, davam os seus primeiros passos. Manda a historiografia musical dizer que os ditos Seymour não divergiam sobremaneira da matriz “madchester”, começando por ser seguidores empenhados dos Stone Roses mas também de outros pontas-de-lança da altura, como os Charlatans ou os Inspiral Carpets.

O ano era 1989 e vivia-se em Inglaterra um período de misturas descomplexadas de tendências, com vestígios do mod dos Kinks, ou The Who a entrelaçarem-se com batidas e linhas de baixo saídas directamente dos clubes londrinos mas, especialmente, de Manchester.

Por altura do lançamento do primeiro álbum da banda que reunia Damon Albarn (voz), Graham Coxon (guitarra), Alex James (baixo) e Dave Rowntree (bateria), já os Seymour se chamam Blur. “Leisure” (1991), o incaracterístico (mas ocasionalmente cativante) primeiro registo dos Blur, abria portas a uma carreira de muitas aventuras que se repartiria por capítulos diferentes: “Modern Life Is Rubbish” (1993), “Parklife” (1994) e “The Great Escape” (1995) são restituições da melhor tradição Kinks, com um imaginário britânico omnipresente e a tão típica caracterização de ambientes e figuras que distinguiu Ray Davies e comparsas vinte anos antes.

Mas o Blur acabariam por resistir à tentação de prosseguir na mesma toada e o álbum homónimo, de 1997, haveria de marcar a despedida do vaudeville ocasional, da crónica de costumes segundo os cânones da Velha Albion, da adequação da música ao imaginário. E isto, obviamente, sem minimizar obras-primas de composição de Londres ao Tibete como “To The End”, “The Universal” ou “Chemical World”. São da era do chamado britpop alguns dos melhores temas dos Blur e o próprio estilo (para o bem e para o mal é uma etiqueta que persiste) beneficiou da genialidade do quarteto para não se tornar apenas uma memória vã de uma moda passageira. Se “Blur”, com a (excessivamente) propalada piscadela de olho ao indie norte-americano (o nome Pavement foi mencionado vezes demais), se constituiu como a ruptura necessária que acaba por abrir, inclusive, portas ao mercado yankee (“Song 2” a principal responsável), “13” – editado dois anos depois – partiu da estudada mudança de estratégia para o território da delirante (e igualmente deliciosa) irresponsabilidade que colocou os Blur num merecido lugar de destaque da música que interessa independentemente das gavetas onde a arquivamos. A “Trimm Trabb”, “Battle” e “Trailer Park” não se pode, decididamente, apontar o dedo inquisitório que diz “demasiado britânico para poder ser ouvido por todos” e a cartada jogada (numa parceria de produção com William Orbit) foi ganha em grande estilo mesmo sabendo que as imposições do sucesso pós – ”Blur” poderiam dinamitar a liberdade criativa do grupo.

“Think Tank” chega-nos às mãos como uma verdadeira incógnita. Não porque duvidemos do talento (comprovado) dos Blur para abraçar a novidade sem preconceitos mas porque, pela primeira vez, se pôs em causa a continuação do grupo. A saída do guitarrista Graham Coxon introduziu nos Blur um dilema que, à partida, seria difícil de superar: como fazer pop/rock de guitarras sem um guitarrista? E com um vocalista que tem injectado no referido universo pop/rock um cariz universalista (felizmente) nos antípodas do colonialismo e canibalismo habitualmente patente na apropriação ocidental das ditas músicas do mundo? A resposta é dada em catorze temas em que o conceito não existe. Em “Think Tank” existem catorze propostas de utilização da palavra pop mas, sobretudo, propostas de combinação de sons pouco vizinhos que, sob a batuta de uns Blur reduzidos a terceto, encontram um entusiasmo que só desvendamos naqueles casos em que o estranho se impregna à primeira em tecido virgem. “Crazy Beat” é, claramente, o futuro single para consumo global mas as maiores virtudes encontram-se nas – estranhamente – familiares “Good Song” e “Sweet Song” (apreciável a categorização) mas, especialmente, nas vibrantes “Moroccan Peoples Revolutionary Bowls Club” e “Battery On Your Leg” (nesta, a única aparição de Coxon no disco) e no quase dub de “Caravan” e “On The Way To The Club”.

A grande surpresa – e aqui assumo-me controverso e, é provável, gratuitamente provocador – é que este álbum poderia ter sido feito por Graham Coxon mas, assinale-se, fora dos Blur. “The Kiss Of Morning”, o último álbum de Coxon, está bem longe disto mas revela – nas entrelinhas – a mesma matéria pouco esquematizável de que é feito “Think Tank”. A grande boa nova é que os Blur fazem-no tão bem como Coxon e – já se viu – os resultados são perfeitamente compatíveis. É que se Graham Coxon está, a julgar pelo álbum mais recente, muito bem fora dos Blur, os Blur – prova-o “Think Tank” estão muito bem sem Graham Coxon.

Luís Guerra
(Mondo Bizarre # 15)