BOBBY CONN
O NOVO TIRANOSSAURO
Bobby Conn é o auto-proclamado "artista cristão preferido de Chicago". Apresenta-se também como narcisista, megalómano, paranóico, esquizofrénico e com um ego do tamanho da América. Uma espécie de anti-cristo à la Marylin Manson, mas sem a ajuda do marketing e dos seios postiços. "The Golden Age" é já o terceiro álbum, que confirma este músico como um dos mais frenéticos e estimulantes do momento.
O percurso musical de Bobby Conn começa numa banda de art-rock chamada Condeucent, que ficou mais conhecida pela obscuridade do que propriamente pela música. Em nome próprio, lançou-se em 1995 com um 7", de seu nome "Whose the Paul?". Pouco depois foi convidado a integrar a editora Truckstop/Atavistic, onde editou o primeiro álbum, "Bobby Conn", em 1997. A aclamação veio em 1998 com o segundo registo, "Rise Up!", produzido por Jim O'Rourke, onde Bobby Conn explora com mestria e humor as suas raízes judaicas. "United Nations" é mesmo um dos melhores temas da sua carreira. De seguida, mudou-se para a Thrill Jockey, onde já gravou o EP "Lovesongs" e este "The Golden Age".
Conceptualmente, a obra de Bobby Conn é uma mistura de T-Rex, Prince, Serge Gainsbourg, Burt Bacharach e até Motorhead. À qual acrescem as influências pessoais assumidas pelo próprio músico: Cat Stevens, Paul McCartney, Sly e a família Stone, sem esquecer o incontornável tema da religião, que paira sobre todos os discos e que Conn absorve nas suas várias formas: judaísmo, Cristo, Satã, os cultos californianos e esquemas para enriquecer muito e depressa. Não é de estranhar que Andy Kaufman seja o seu grande herói e que Bobby Conn tenha passado 9 meses pela prisão antes de iniciar a carreira musical, acusado de fraude fiscal devido a uma negociata de "timesharing". Esta mistura, que provoca arrepios, tem produzido resultados fora do comum.
"The Golden Age" é, para já, a última cereja em cima de um bolo repleto de natas, resultado de ano e meio de gravações, sempre em busca da perfeição. Um disco que consegue abranger épicos modernos com laivos de Marc Bolan e Lou Reed ("You've come a long way") e melodias cativantes que soam a Burt Bacharach ("The best years of our lives"), passando por aproximações aos falsetes de Prince ("Winners"). Tudo pautado por uma intensa ironia, como se pode ouvir em "No Revolution" ou "Whores". No epicentro do processo criativo estão Bobby Conn e Monika Boubou, nome artístico da sua mulher Julie Pomerleau, que neste disco se fazem acompanhar por uma miríade de ilustres convidados: Josh Abrams, Jeb Bishop, Colby Stark, Jonathan Joe, Thymme Jones, Glenn Kotche, Nick Sula, Fred Lonberg-Holm, Ernst Karel, Lise Gilly, John Ridenour, Pat Samson e Michael Zerang. Com Jim O'Rourke e John McEntire ao leme das gravações.
Quem embirra solenemente com o glam rock dos anos 70 é melhor ir para outras paragens. Quem gosta de experiências novas e de ser seduzido e surpreendido, encontrará com certeza em Bobby Conn uma fonte inesgotável de música perturbante e cativante, e em "The Golden Age" um dos discos mais bombásticos e surpreendentes de 2001.
Vasco Durão
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