BUCKCHERRY
CEREJAS DE GLAMOUR
Morto todos os dias e ressuscitado todas as noites, o rock’n’roll tem mais um nome a engrossar as suas fileiras: Buckcherry.
O nome daqueles que começaram por se chamar Sparrow, é o mesmo que o de um travesti que costumava frequentar os primeiros concertos da banda. Na linha de uns Guns'n'Roses, a quem pretendem usurpar o lugar de "maior banda rock do mundo", Rose Tatoo ou Hanoi Rocks, a banda de Joshua Todd viu a luz do dia na Califórnia, na mesma época em que Kurt Cobain e os seus pares elevavam o grunge e Seattle a fenómeno mundial.
Depois foram longos anos de travessia do deserto. Afinal, em meados dos politicamente correctos anos 90, quem é que estava interessado numa banda com um visual muito pouco discreto, e que ainda por cima re-estabelece o mito do sex & drugs & rock'n'roll. Ninguém, não é?
Pois sim, mas com Michael Monroe (ex-Hanoi Rocks) a editar discos a solo, com a invasão do rock escandinavo e com o glam-punk-rock a ressurgir, chegou a altura dos Buckcherry sairem do nevoeiro. Como qualquer banda do género, o visual é parte importante da estética do grupo. As tatuagens, os lenços na cabeça, os casacos de pelo, o tronco nú de Josh - uma mistura de Iggy Pop e Axl Rose -, a franja colorida e as camisolas justinhas de Iogy são suficientes para atrair a atenção de qualquer um que se debruce sobre uma fotografia da banda. Mas JB, Devon e Keith, não só são o suporte musical como também não destoam do retrato do grupo. Em pouco tempo os Buckcherry conseguiram alguma projecão nos Estados Unidos e ser banda de suporte da digressão europeia dos Kiss, em 1999.
E depois há a música. Rock, na vertente hard, com direito a balada e tudo. E as letras, as tais que causaram celeuma na sempre puritana imprensa anglo-saxónica. Verdade seja dita que linhas como a já famosa "I love the cocaine", ou "She really loves when I fuck her tits" já não se ouviam há uns tempos. Mas reduzir os Buckcherry e o seu álbum homónimo, produzido por Terry Date (que trabalhou com White Zombie, Pantera, Soundgarden e Deftones) e pelo ex-Sex Pistols Steve Jones, a um grupo de rapazinhos com apetência para as drogas e pouco respeito pelo sexo feminino é negar a própria essência do rock'n'roll: dar nas vistas, ter uns corpos bonitos, usar frases explosivas, tocar com a potência no máximo... E "Buckcherry" é, acima de tudo, um sofisticado disco de rock. Sem os rendilhados de "Use Your Illusion", o disco é um trabalho equilibrado e poderoso que lembra, por vezes, discos dos Black Crowes ou dos Soundgarden. O som de "Buckcherry" não é igual ao de nenhum dos grupos que se poderiam alinhar como influências: AC/DC, Guns'n'Roses, Kiss, Aerosmith...
Mas no mundo do rock nunca nada é o que parece. Senão qual era a utilidade das lantejoulas, dos óculos escuros nas fotografias de interiores, das limusines, do espectáculo? E, afinal, os Buckcherry não são os porcos machistas que algumas da suas canções podem levar a pensar. Uma das bandas favoritas de Josh são os Skunk Anansie e são bons amigos de Ben Harper. "Dead Again" (uma canção amarga sobre amigos mortos prematuramente) ou "Dirty Mind" (sobre uma relação amorosa em declínio), não se encaixam na cançoneta fácil e despreocupada, cliché que se costuma pegar aos temas de grupos rock deste género como uma lapa a uma rocha. Ah! E até conseguem dar umas entrevistas inteligentes.
O rock é tramado, não é?
Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 2)
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