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BUTTHOLE SURFERS
REGRESSO AO PASSADO?
A banda mais infame e incompreendida dos "anais" do rock underground americano está de regresso. Depois de uma carreira promissora nos anos 80, onde atingiram o auge da estranheza e da depravação, na derradeira década do Séc. XX, a originalidade que sempre caracterizou os Butthole Surfers desvaneceu-se. 2001 lança-os numa nova odisseia musical.

As primeiras sementes foram lançadas em 1977, quando o testa-de-ferro Gibby Haynes, filho de uma estrela de programas televisivos para crianças chamado "Mr. Peppermint", conheceu o guitarrista Paul Leary na Universidade. Quatro anos depois, formaram os dois a banda Ashtray Baby Heads, que pouco depois mudou para Nine Foot Worm Makes Home Food. O nome Butthole Surfers surgiu devido ao engano de um locutor de rádio, que tomou o título de uma das primeiras canções pelo nome da banda. Em 1981, assinaram pela Alternative Tentacles de Jello Biafra, e em 1983 nascia o álbum de estreia: "Brown Reason to Live". O mesmo ano em que os bateristas King Coffey e Theresa Nervosa aderiam à causa.

Os Butthole Surfers tornaram-se desde logo famosos nos meios alternativos pelos seus concertos bizarros, que cruzavam dançarinas nuas com imagens de operações de mudança de sexo. O EP de 1984, "Live PCPPEP", é o exemplo da energia gasta pela banda ao vivo. Pouco depois, veio a mudança para a editora de Chicago Touch and Go e o período mais interessante dos cerca de 20 anos de vida da banda. Entre 1985 e 1989, foram editados "Psychic...Powerless...Another Man's Sac", "Cream Corn From the Socket of Davis" (EP), "Rembrandt Pussyhorse", "Locust Abortion Technician", "Hairway to Steven", "Widowermaker" (EP) e "Double Live Album" (edição de autor). O novo baixista Jeff "Tooter" Pinkus e os efeitos vocais de Haynes agravaram o psicadelismo da música, a originalidade na abordagem ao rock e a experimentação sem compromissos. Temas como "American Woman", "Moving to Florida", "Swatloaf", "Graveyard", "John E. Smoke" etc., etc. tornaram os Butthole Surfers numa banda incontornável, tanto como, e só para citar dois exemplos, os Big Black e os Sonic Youth.

Após uma década recheada, os Butthole Surfers desapareceram sem razão aparente, para reapareceram em 1991 na Rough Trade, com "Pioughd", que mantém a mesma qualidade e inconstância dos registos anteriores, apesar de algo desconsiderado pela crítica. Para muitos, o grande choque veio em 1992, com o contrato assinado com a Capitol Records, uma major que quase destruiu a banda. O resultado foi "Independent Worm Saloon" (1993) um álbum de rock previsível, produzido pelo ex-Led Zeppelin John Paul Jones, com algumas boas malhas, mas pouco mais que isso. Apesar dos problemas e de uma segunda desaparição, a banda ainda lançou "Electriclarryland" na Capitol, em 1996. Mais interessante que o anterior, mesmo assim os Butthole Surfers continuavam alheados do poder musical demonstrado anos antes. E até conseguiram produzir um sucesso comercial com um tema quase trip-hop "Pepper". Nestes anos, são mais dignos de registo os trabalhos paralelos de Gibby Haynes na banda P (com o actor Johnny Depp) e de King Coffey nos Drain e na editora Trance Syndicate.

Após uma terceira desaparição, esta de 5 anos e motivada por complicados desentendimentos legais com a Capitol, os Butthole Surfers parece que voltaram para ficar em 2001. Haynes, Leary e Coffey, agora acompanhados pelo baixista Nathan Calhoun, aperceberam-se (a tempo?) de que a partir do momento que a banda se tinha tornado num projecto economicamente viável, deixou de fazer sentido. O resultado da mudança de atitude foi uma nova editora (Hollywood Records) e uma nova abordagem sonora ("Weird Revolution"). Aqueles que se renderam ao som mais rock, e de certo modo mainstream, dos 2 últimos álbuns vão ficar desiludidos. Isto porque de facto os Butthole Surfers revolucionaram o seu som. Regressaram ao experimentalismo, começando cada tema sem saber como é que ele acabaria, um pouco no espírito dos álbuns produzidos nos loucos anos 80. Contudo, o produto final é diferente de tudo aquilo que a banda fez até à data. Mais electrónico, mais computadorizado e até por vezes dançável. "Dracula from Houston" e "Get Down" são bons exemplos. Segundo os próprios músicos, "Weird Revolution" reflecte a música que têm ouvido nos últimos anos, a qual tem passado mais pela cultura DJ do que pelo rock. O nome do disco nasceu na mente tortuosa de Gibby Haynes, que se inspirou na retórica da revolução negra de Malcolm X, para transformá-la numa revolução boémia para o novo milénio. Aliás as referências à mortalidade e à espiritualidade são constantes nas letras de Haynes, cuja voz está mais presente que em discos anteriores.

Os Butthole Surfers acabam por ser um cruzamento da América profunda e da América cosmopolita, pelo que tudo é possível esperar desta banda. "Weird Revolution" é o último passo. Pode não ser aquele que esperávamos, mas tem a vantagem de não entrar à primeira. E as audições seguintes revelam algumas surpresas. De uma coisa podemos ter a certeza: não vamos ficar tanto tempo sem notícias do olho do cu.

Um conselho: visitem o site dos Butthole Surfers, porque há muitos MP3 de bootlegs para fazer download, nomeadamente todo o "Double Live Album".

Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 9)