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CABARET VOLTAIRE
A VOZ DE SHEFFIELD
Emergindo da fornada de bandas que entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80 foram catalogadas como electro-industrial, os Cabaret Voltaire, enquanto unidade criativa, evoluíram para uma sonoridade mais dançável explorando as tecnologias emergentes. Com a edição simultânea de duas compilações, o nome Cabaret Voltaire volta a ser relembrado como responsáveis pelo desenvolvimento da música electrónica mais dançável da década de 80.

Nascidos numa cidade industrial como Sheffield, os Cabaret Voltaire desde cedo assumiram uma paixão pela experimentação de sons bizarros produzidos por instrumentos transformados ou mesmo inventados. No final dos anos 70, com o punk a dominar o cérebro dos adolescentes, não era politicamente correcto fazer concertos recorrendo ao uso de gravações para simular percussão, um clarinete tratado e uma guitarra, mesmo que na sua essência a música fosse tão politizada como o punk de então. Essa corrente que ajudaram a criar, juntamente com outros companheiros locais como os Clock DVA ou Human League, no seu estado mais primário, ficaria conhecida como electro-industrial.

Com a evolução da tecnologia a música dos Cabaret Voltaire passou de uma forma de colagem sonora artesanal para um som mais sofisticado, onde o sampler se tornou num elemento fundamental para complementar as palavras de Stephen Mallinder, apoiadas não só pelos habituais samplers de sons mas também por palavras de ordem repetidas obsessivamente como em "Do Right". O núcleo formado por Mallinder, Richard H Kirk e Chris Watson desenvolveu, a partir do seu estúdio particular, os Western Works, uma sonoridade própria auxiliada por imagens agressivas que eram exibidas durante os concertos e utilizadas nos vídeos. A componente visual sempre foi uma das grandes prioridades da banda, demonstrando um cuidado ímpar na concepção de toda a parte gráfica e imagética dos discos e demais merchandising, para a qual foi preciosa a colaboração de Neville Brody, um jovem artista gráfico que revolucionaria o design da época, e que foi responsável durante alguns anos pelo grafismo da revista The Face, onde introduziu algumas técnicas de estilização de ícones. Para além de criar a imagem dos Cabaret Voltaire, Brody desenharia capas de discos dos Depeche Mode, Clock DVA, 23 Skidoo ou Throbbing Gristle. Como complemento, os Cabaret Voltaire criariam ainda uma produtora de vídeo, a Doublevision, para poderem explorar outra das suas paixões: o vídeo. Concentrados essencialmente na colagem de imagens captadas um pouco por todo o lado ou roubadas da televisão, os Cabaret Voltaire podiam assim atacar em todas as frentes. Esta paixão pela captação de momentos efémeros seria imortalizada na capa de "The Crackdown", onde Kirk e Mallinder aparecem com uma câmara e um gravador.

Possivelmente foi essa imagem agressiva e política que os inibiu de ultrapassarem o estatuto de banda de culto mesmo tendo assinado por uma editora grande. Como repercussão fica, no entanto, a influência assumida da música e conceito dos Cabaret Voltaire em futuras gerações de músicos e estéticas musicais.

Depois de alguns anos ligados à independente Rough Trade, para onde gravaram alguns dos álbuns fundamentais para a compreensão da música experimental dos anos 80, como "Red Mecca" e especial "The Voice Of America", os Cabaret Voltaire, agora reduzidos a duo com a saída de Chris Watson - que aceitou um lugar no departamento de som da BBC e formaria entretanto os The Hafler Trio -, assinam pela Virgin, via um acordo com a editora Some Bizarre. Com um som mais elaborado a música dos Cabaret Voltaire passa a estar mais virada para as pistas de dança alternativas mas não descora o conceito de terrorismo sonoro que sempre lhes esteve inerente. Paralelamente, Richard H Kirk e Stephen Mallinder exploravam novos conceitos em nome próprio, conseguindo os melhores resultados em "Black Jesus Voice" e "Pow Wow Plus", respectivamente.

As duas compilações agora editadas têm como partida as primeiras gravações para a Virgin. É importante mencionar que nem "The Original Sound of Sheffield '83/'87. Best of" (CD Virgin/EMI) nem "Conform to Deform '82/'90. Archive" (3xCD Virgin/imp. King Size) são um "best of" dos discos editados pela Virgin, nem tão pouco a primeira é um resumo da segunda. Ambas as edições são totalmente diferentes e complementam-se quando analisadas em conjunto. "The Original Sound of Sheffield '83/'87. Best of" inclui várias remisturas, destinadas a maxi-singles, de temas originalmente incluídos em "The Crackdown", "Micro-Phonies", "Drinking Gasoline" (editado como complemento do vídeo "Gasoline in your Eye"), "The Covenant, The Sword and The Arm of the Lord" - quatro exemplos fundamentais da música electrónica da década de 80 - e "Code", realizadas por François Kevorkian, Flood ou Adrian Sherwood, numa clara tentativa de tomar de assalto as pistas de dança e continuar o trabalho iniciado em "Technology: Western Re-Works 1992", no qual as remisturas foram realizadas por Kirk e Mallinder, excepção feita a uma revisão de "I Want You" pelos Altern 8. Sem se afastarem muito do original, estas misturas são exemplo de que se a matéria-prima for boa, consegue sobreviver ao tempo.

"Conform to Deform '82/'90. Archive" vai um pouco mais longe e compila em três CD's gravações inéditas e versões raras de estúdio, na sua maioria remisturas, e ainda um concerto realizado em Edimburgo, em Junho de 1990, onde a frieza do som das máquinas poderia ser compensada se o som fosse acompanhado de imagens (se não do concerto, pelo menos das colagens visuais) de que os Cabaret Voltaire eram apologistas. Aliás, apesar da concepção gráfica de ambas as edições ter sido cuidada, faria todo o sentido se o trabalho tivesse sido realizado, uma vez mais, por Neville Brody, para que também ele pudesse "remisturar" os conceitos gráficos por ele utilizados durante o período em que trabalhou com os Cabaret Voltaire.

Hugo Moutinho