CALEXICO
A FRAGILIDADE DO SONHO, O FESTIM
Os Calexico são, certamente, uma das mais originais, talentosas e cativantes formações do momento, dando-nos, desde 1996 a esta parte, testemunhos musicais soberbos, como aqueles que podem ser escutados nos álbuns “Black Light”, “Hot Rail” e no recente “Feast Of Wire”.
O elemento original dos Calexico, cujo núcleo duro são os também membros dos Giant Sand Joey Burns (vocalista e multi-instrumentista) e John Convertino (baterista e percurssionista), reside no facto de beberem do imaginário western duma América profunda, que saudavelmente se deixa influenciar pelos ritmos hispânicos dum México vizinho, não se limitando contudo a recriar aquilo que alguns apelidam de spaghetti western. A sua música torna-se muito bela, simples na sua complexidade, dada a capacidade experimental, de índole algo jazzística, e a grande habilidade técnica destes músicos - que, ainda assim, nunca perdem de vista um apurado sentido melódico -, aliada a ambientes e cadências do deserto que os rodeia, a toda uma mitologia americana do sonho - cheia também de celebração latina, mas conjugada com o sentimento profundo da fragilidade do indivíduo e da condição humana, se quisermos.
E se, após o magnifico “Hot Rail”, que trouxe aos Calexico o merecido reconhecimento, as expectativas eram muito altas em relação ao álbum seguinte, “Feast Of Wire” conseguiu, ainda assim, superá-las. Isto porque alcançou o árduo feito de não repetir as fórmulas musicais anteriores, dando-nos excelentes canções e momentos musicalmente diversificados mas coesos no todo.
A abrir temos “Sunken Waltz”, que com os três tempos da valsa desenha uma balada um pouco épica, inspirada na demanda do indivíduo pelo sonho nessa América tradicional. Segue-se “Quattro”, uma arrebatadora canção que nos arrasta num dedilhar, num lavar da alma e do corpo que culmina nos sensuais ritmos dos trompetes. A voz de Burns aparece, também, perfeita, pois complementa toda a ambiência instrumental sem a abafar, ora mais íntima, ora mais dramática, frágil sem ser discreta, dando um grande sentimento às canções que interpreta.
Se momentos instrumentais mais evocativos como “Stucco” ou “Crumble” vão um pouco na linha dos discos anteriores, a intensidade noir, cinemática, de “Black Heart”, é aqui uma boa novidade. Também o é o piano dramático de “The Book and The Canal” ou ainda “Not Even Stevie Nicks”, cuja beleza acústica e frágil intensidade ao retratar o desespero suicida é, no mínimo, tocante. Tocante é ainda o melancólico “Woven Birds”, com um ambiente de cadência sussurrada. Já ao jeito mariachi, imponente e ritmado a que os Calexico nos tinham habituado, surgem “Close Behind” e o sedutor festim de entrega inocente que é “Across The Wire (Widescreen)”. Festivos também nos seus ritmos calientes, hispânicos sim, mas desta feita mais cubanos que mexicanos, são “Dub Latina” e “Guero Canelo”, que se mostram diferentes do groove de “Attack El Robot! Attack!”, tema que traz algumas electrónicas e ritmos jazzisticos pelo meio. Jazzístico mesmo é o experimentalismo ritmado de “Crumble”, no qual está patente toda a capacidade destes músicos. Músicos que nos trazem um disco obrigatório como “Feast of Wire” é, onde a alegria, tristeza, saúde e doença, fazem, certamente, sentido.
Ana Gandum
(Mondo Bizarre # 14)
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