O NADA DEPOIS DO ROCK OU COMO ACABAR COM A CONFUSÃO EM QUATRO COMPILAÇÕES
Foram reeditadas e lançadas este ano e acabaram por se revelar um imenso novelo que, lentamente, críticos e jornalistas, músicos e público estão a tentar destrinçar no meio de referências cruzadas, citações e notas de rodapé. Omnipresentes encontram-se as palavras pós-punk e no-wave que em si carregam significados excitantemente confusos nestes tempos de bulimia musical. Perante tal cenário, há então quem fale em revivalismos e quem prefira estabelecer analogias e comparações. Ora não se seguirá aqui qualquer uma destas opções, mas tentar-se-á antes balizar movimentos, fugas para a frente e eventuais regressos ao passado. Usando como pontos de observação os discos “No New York”, “New York Noise”, “Rough Trade Shops Post Punk 01” e “Yes New York”.
Quando em 1978 o jornalista da Rocker Roy Trakin afirmava que a no wave alcançaria o devido reconhecimento ao longo dos anos 80 e 90, apontando a estridência e a dissonância como caminhos últimos do rock, facilmente se concluía que este subgénero, nascido na zona do SoHo, em Nova Iorque, numa galeria pouco ortodoxa, não teria a mínima hipótese de alcançar sucesso comercial. Se esse animal híbrido que dava pelo nome de new-wave, apesar das suas pretensões pop, tinha um ano antes morrido na praia, o que se poderia esperar de um conjunto de não-músicos (candidatos a artistas e poetas) que nada mais pretendiam do que estremar as estratégias de choque do punk, ainda por cima fazendo bandeira do amadorismo, do minimalismo e do confronto? Afinal, aquilo que se desejava era que nenhuma convenção do rock pudesse respirar. Para que este sufocasse as vezes que fossem necessárias.
Vindos dos chamados espaços ou galerias alternativas – como a Kitchen ou a Artists Space – muitos destes novos músicos nunca haviam experimentado tocar um instrumento no contexto da cultura popular, pelo que quando o fizeram pela primeira vez procuraram antes de tudo conhecer as suas possibilidades sonoras. Exploração e experimentação eram as palavras de ordem mas não existia qualquer cartilha estética. Apenas um gesto expressivo como aquele que percorre a lendária compilação “No New York”. Em suma: novos timbres, novos gritos, novos ruídos intuitivamente desenvolvidos por grupos como os Teenage Jesus & The Jerks, Mars, DNA e James Chances & The Contortions. Dos Big Black aos Morphine passando pela cena noise-rock japonesa e pelas bandas riot-grrrl muitos foram aqueles que aproveitaram este arrombar de portas e o saque que se seguiu. É verdade que o tremor só foi sentido em algumas latitudes, mas de vez em quando as prateleiras voltam a abanar. Basta alguém reinventar competências.
A confusão que na introdução mencionámos não fica, contudo, imediatamente desfeita. Perante um disco como “New York Noise” (Soul Jazz), por exemplo, é difícil destrinçar uma realidade una. É que neste surgem tanto as bandas de East Village (os Mars, os DNA e os Contortions), como os projectos da segunda geração da downtown nova-iorquina representada por Glenn Branca e os Theoretical Girls que Brian Eno deixou – propositadamente ou não – de fora de “No New York”. Na verdade, Branca (como aliás Chatham), apesar de também se ter estreado no Artists Space, apostava numa apropriação do rock a partir de um olhar devedor da música erudita contemporânea. Interessava-lhe menos a secção rítmica e mais a guitarra enquanto metáfora (e elemento constituinte) do rock. As suas pretensões vanguardistas (tinha estudado música clássica) acabaram curiosamente por ter um efeito inesperado. Olhado com desconfiança pelo meio onde nasceu (escrevia música de um modo muito particular) viu a sua obra ser tomada por ex-colaboradores e músicos rock e mais tarde recontextualizada sob a forma de citações e “sinfonias” do underground norte-americano (ouça-se a fabulosa “Lesson Nº1”).
Em “New York Noise” não encontramos só distorção ou dissonância mas também ritmos. Sinal claro de uma pequena narrativa nova-iorquina que nos conta o momento em que as comunidades negra e branca deixaram de circular em filas separadas (a primeira, a caminho do clube disco; a segunda, na rota do CBGB´s) e se detiveram nas ruas para conversas ocasionais. James Chance terá sido o primeiro impulsionador deste encontro, mas outros se seguiram numa tentativa de reunir linguagens separadas: o punk e o rock de um lado, o disco e o funk do outro. Com menos sucesso comercial que Blondie e os Talking Heads, grupos como os Bush Tetras, Konk, Liquid Liquid, ou o ex – "compagnon de route" de Basquiat Rammellzee (pintor e escultor, além de poeta, que aqui surge ao lado de K-Rob) vieram demarcar outros caminhos e realidades: o insinuar do hip hop, a afirmação de um funk minimalista e áspero, mas dançante, e o fim da própria no wave. Quanto às conversa ocasionais… essas foram-se realizando ao sabor do tempo e da proximidade.
Do lado de cá do Atlântico, a simbiose entre as duas cores foi menos desconfiada ou localizada como – ainda que de forma desequilibrada – nos atesta a colectânea “Rough Trade Shops Post Punk 01” (mute). Grupos como os Gang Of Four, Pop Group, Delta 5, Pigbag ou os PIL não tiveram quaisquer pruridos em abraçar as estratégias musicais de James Brown, Dr. Alimantado, Funkadelic, Big Youth ou Lee Perry. E fizeram-no descomplexadamente depois de as apreenderem em casa ou em concertos. O período pós-punk inglês foi também, ao contrário da no-wave, assumidamente mais político, sugerindo mesmo outras leituras da indústria cultural com o fizeram os Wire, os Scritti Polliti ou The Fall, todos grupos que na sua heterodoxia continuaram ferozmente britânicos. Em lugares periféricos, e como fósforos ainda por apagar, permanecem três nomes incandescentes: World Domination Enterprises, Blurt e Shockheaded Peters.
E assim chegamos a “Yes New York” (Warner), título tanto mais irrisório quanto cheio de soberba e de alguma estratégia comercial. É que esta Nova Iorque já não é de “Taxi Driver” ou de Nam June Paik. Situa-se algures entre as ruas de Seinfield e o 11 de Setembro. Cheia de nomes divertidamente anódinos (Strokes, Rádio 4, The Rapture) e com sons deliciosamente referenciáveis. Como não reagir com alegria e excitação a temas como “New York City Cops”, dos Strokes, ou “NYC” dos Interpol. É que o que nos é oferecido não é medo ou dor. Apenas uma Nova Iorque que nós facilmente reconhecemos. A questão é se sob esta existe outra. E com ela um novo nada feita de outros sons.
José Marmeleira
(Mondo Bizarre # 16)
| | |