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CRAMMED DISCS
PARA ACABAR DE VEZ COM OS ANOS 80
Esta história começa em 1977 quando os Aksak Maboul ofereçeram ao mundo "Onze Danses Pour Combattre La Migraine", o disco que viria a mapear a orientação electro-étnica da Crammed Discs até 1989. As primeiras bandas de referência a aderir à editora, fundada formalmente por Marc Hollander em 1981, foram Band Apart, The Honeymoon Killers e Minimal Compact. É em 1984 que a Crammed se afirma definitivamente como um espaço aberto e eclético em termos musicais, contrariamente às tendências de especialização da época. Inicia-se então a mais histórica série de edições da Crammed dedicada a uma vertente mais instrumental e abstracta: a colecção Made To Measure, que até hoje apresentou 35 excelentes volumes. Sem dúvida uma das razões pela qual a Crammed vale a pena ser celebrada. Em 1985 os Tuxedomoon aterram definitivamente na Europa e até 1989 a editora assume um estatuto de culto com um catálogo de artistas do Congo, Reino Unido, Irão, Japão, França, Iraque, Bélgica, Noruega, Israel, Etiópia, numa verdadeira acepção globalizante da música. 1989 é a fronteira porque desde então a Crammed deixou-se seduzir pelos (des)encantos da música de dança, o que, na época, foi apontado pela crítica como um desvio imperdoável que tem durado até hoje. Se bem que esse desvio tenha sido perpetrado por alguns dos mentores deste período dourado da editora: Samy Birnbach dos Minimal Compact, hoje reconhecido como DJ Morpheus, e Hollander e Kenis dos Aksak Maboul. O que não invalida a constatação de que a Crammed não teve a mesma sorte (ou engenho) nos anos 90. A história aqui apresentada acaba assim com a edição em 1989 do álbum "East On Fire" dos Foreign Affair, com membros dos então já finados Minimal Compact. Um disco difícil de adquirir que poderia ter sido contemplado nas 12 reedições que celebram os gloriosos anos 80 da Crammed. De 1989 até 2003 vai um hiato de mais de dez anos com inúmeras edições mas sem o mesmo brilho revelado noutros tempos, à excepção da colecção Made To Measure.

Apesar da mudança de ares musicais, não podemos deixar de referir que desde 1977 a Crammed colocou no mercado 212 álbuns e mais de 200 singles, e temos de reconhecer que a editora foi inteligente ao aproveitar o recente revivalismo dos anos 80 com um trabalho de recuperação quase etnográfico, que no seu todo inclui 12 reedições de álbuns seminais do período em causa, e uma caixa-compilação com dois CD's históricos, um mini-CD com 4 remisturas e ainda um livro para recordar os bons velhos tempos. Se para os coleccionadores terão maior interesse os 12 discos reeditados, a caixa-compilação vale pelo trabalho de recolha e mistura efectuado pelo próprio Marc Hollander, com um dos discos a compilar o lado étnico e o outro o lado electrowave, seguramente as duas vertentes em que a Crammed marcou mais pontos. O CD de remisturas é a tentativa (frustrada) de aproximar a Crammed de então à de hoje.

Para aqueles que acham que vale a pena recordar os anos 80, a Crammed Discs não poderá ser deixada de lado. Aliás, com este trabalho e no bom sentido da expressão, já podemos acabar de vez com aquela década. Vejamos porquê numa apreciação particular a cada um dos 12 discos considerados como aqueles que apresentam o passado na perfeição e que abrem as portas para um futuro que possa recuperar o tempo perdido desde então.

"Onze Danses Pour Combattre La Migraine" (1977) dos Aksak Maboul é um dos álbuns imprescindíveis, ainda mais por ser a primeira edição em CD desta obra. Um registo já lendário da banda de Marc Hollander e Vincent Kenis, com elementos de jazz e electrónica, e com inspirações africanas, balcânicas e minimais.

Dos Tuxedomoon a reedição sorriu a "Desire" (1981). Podemos perguntar se não existem outros álbuns ainda melhores do que este desejo de uma banda que esteve sempre à frente do seu tempo e que já foi considerada a banda americana mais europeia da história da música. Muito provavelmente a mais inovadora das que militou na Crammed.

Os Honeymoon Killers foram uma banda provocadora ao vivo, mas com uma forte tendência pop, que transportou o seu glamour francês pela Europa no princípio dos anos 80. "Les Tueurs De La Lune De Miel" (1982) não deixa de ser um registo que fica muito colado aos tempos em que foi gravado, e que vale sobretudo por nunca ter sido editado em CD antes e por ser um dos que mais extras oferece. Benjamin Lew teve direito a uma edição especial que compila os seus trabalhos de electrónica atmosféricos e hipnóticos produzidos em quatro álbuns, entre 1982 e 1993. "Compiled Electronics Landscapes" contém algumas das melhores sonoridades que a Crammed editou e que continuam a fazer todo o sentido nos nossos dias.

Hector Zazou é o único músico com direito a dupla reedição, se bem que a primeira seja a meias com o cantor congolês Bony Bikaye e com os manipuladores de sons CY1. "Noir Eet Blanc" (1983) é outro dos discos intemporais e claramente recomendável desta história, como o é "Reivax Au Bongo" (1986) de Zazou a solo. Uma banda sonora sonhada num país africano fictício com três vozes do Congo maravilhosamente reais: Bony Bikaye, Kanda Bongo Man e Ray Lema. Uma viagem clássica e electrónica ao mesmo tempo.

Para os Minimal Compact aplica-se a mesma observação utilizada para os Tuxedomoon. "Deadly Weapons" (1984) é uma obra de referência, mas existem outras que poderiam ou deveriam ter sido reeditadas, quanto mais não seja porque esta não é a primeira edição em CD deste disco e não acrescenta nada à anterior. Mas é certo estamos perante uma das mais inspiradoras bandas dos anos 80, que revolucionou o pop europeu com os seus sabores importados do Médio Oriente israelita de onde são originários.

A reedição de Karl Biscuit, o artista francês proveniente do mundo do ballet contemporâneo, compila todos os trabalhos electropop do músico debaixo do título "Secret Love 1984-86". O disco vale mais pelo lado histórico do que pelo interesse musical – é um dos mais datados de todos os 12 discos em análise. Se calhar é por isso que Biscuit se apressou a regressar ao seu primeiro amor, dirigindo até hoje a bem sucedida companhia de dança Castafiore.

Colin Newman é outro dos nomes inesquecíveis dos anos 80, em nome próprio ou como vocalista da grande banda dos pós-punk Wire. Se bem que continue hoje a produzir música, nomeadamente com a sua mulher Malka Spigel, dos já mencionados Minimal Compact. "Commercial Suicide" (1986) é uma das suas obras mais conseguidas na área da pop electrónica, que nesta reedição vem acrescentada de uma peça em duas partes de 12 minutos onde Newman disserta sobre a sua própria música.

O disco de Sonoko, "La Débutante" (1988), é um dos mais singulares da Crammed. É aquele que geograficamente vai mais longe, trazendo em plenos anos 80 para a Europa uma voz japonesa exótica que cruza espíritos tão díspares como Brigitte Bardot, Suicide, cinema francês, Nino Rota, David Lynch (oiça-se a magnífica versão de "In Heaven") e até música de igreja e Shakespeare. Uma voz hipnótica que até já inspirou passagens de modelos de Jean-Paul Gaultier.

"Desert Equations: Azax Attra" (1987) é, na minha exclusiva opinião, o melhor de todos estes 12 discos, e esta não é uma afirmação fácil de fazer. Muito simplesmente porque muito para além da própria Crammed, este é um dos discos de toda a história da música que melhor soube fundir a música electrónica com a música étnica, e que produziu um dos melhores encontros de dois mundos que têm estado em permanente tensão: o Irão da vocalista Sussan Deyhim e os EUA do compositor Richard Horowitz. Um disco revolucionário no seu tempo e para todo o sempre, que nem faz diferença que não tenha nenhuns extras para além dos oito temas que compuseram o original.

A colecção de reedições termina com "White-Out Conditions" (1988) dos Bel Canto, o primeiro álbum da banda norueguesa que abriu as portas da Europa aos subsequentes Biosphere, Röyksopp, entre outros. É um registo de agradáveis melodias, onde sobressalta a voz de Anneli Marian Drecker, mas que não deixa de sofrer do mesmo mal que afecta alguns dos discos observados: custa a desligar-se do tempo em que foi feito.

Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 17)