THE DATSUNS
NOVOS CLÁSSICOS
O motor barulhento com escape livre dos Datsuns continua a roncar em alta rotação. “Outta Sight/Outta Mind”, o sucessor de “The Datsuns”, demonstra porque é que este quarteto dos antípodas não é somente mais um nome a juntar a uma multidão de revivalistas de ocasião. Com 12 óptimas canções de um rock’n’roll altamente calórico, os Datsuns passam a meta do segundo álbum em grande estilo.
Os Datsuns não escondem nenhum truque especial: fazem rock’n’roll puríssimo. Com um toque retro, é certo, como tem sido de rigor nas bandas mais interessantes dos últimos anos, e por isso mesmo sem grandes preocupações acerca de como deve soar uma banda de rock no Séc. XXI – até porque o estilo é supostamente pertença do milénio passado. Mas, basicamente, o que este quarteto neozelandês põe em prática é uma versão suada e energética do rock de garagem herdado dos Stooges, dos MC5 e das bandas mais barulhentas da década de 70: dos Zeppelin, dos AC/DC, dos Free, dos Grand Funk Railroad e até dos ZZ Top. Não há muita investigação e desenvolvimento, portanto.
Há genica e electricidade a rodos, e um certo savoir-faire de quem se dedicou a isto de alma e coração há já muito tempo. Foi o que pôde constatar quem os viu no palco de Paredes de Coura no ano passado: muito suor e decibéis, mas também o encarnar de um cenário rockeiro com algum glamour e estilo, o que talvez os separe de muitas das outras bandas próximas em termos sonoros. Quer dizer que os Datsuns não só sabem disparar riffs certeiros e fazer boas canções, como jogar com graça com os clichés de um estilo de há muito explorado e tornado a explorar.
“The Datsuns”, o álbum que os revelou ao mundo no início de 2003, vinha na crista da onda do neo–revivalismo rock despertado pelo sucesso dos Strokes, e catapultou para a ribalta uma banda que até então tinha tido uma existência discreta nos antípodas, mas que já tinha conseguido conquistar Londres. Canções com graça e pêlo na venta como “MF From Hell” ou “Harmonic Generator” garantiram-lhes a visibilidade necessária e por entre a miríade de bandas de novo rock (ou velho, como preferirem) os Datsuns soaram bem alto.
Repetir a proeza é sempre mais complicado. Não só por causa da conhecidíssima “sindroma do 2º álbum”, mas porque entretanto o ímpeto rockeiro já abrandou um pouco nos interesses dos media, e hoje em dia tudo se consome demasiado rapidamente. Para responder a essa conjuntura desfavorável, os Datsuns aplicaram-se verdadeiramente, concentrando toda a sua energia na construção de “Outta Sight/Outta Mind”, um álbum onde não há um “Harmonic Generator” imediato, mas que é um sucessor condigno de “The Datsuns”. Vê-se (ouve-se…) que muito pó de estrada foi comido neste último ano e meio e que eles não abrandaram a sua paixão por um rock’n’roll desbragado e rico em adrenalina.
Desde a entrada – “Blacken My Thumb”, que as cartas ficam postas na mesa: os Datsuns vieram para fazer abanar as ancas e as cabeleiras a grande ritmo. Sem grandes ataques de auto-indulgência, com poucos solos e directos ao osso. Depois há “That Sure Ain’t Right”, o “zztopeano” “Messin’ Around” ou o divertido “Hong Kong Fury”. Sempre em grande estilo high energy rock’n’roll, sempre com groove mas também com neurónios, embora não haja por aqui grandes oportunidades para conjecturas ou reflexões.
Em “Outta Sight/Outta Mind”, os Datsuns continuam a ser o que já nos tinham habituado antes: uma banda com a ânsia de conquistar um lugar no panteão das bandas mais excitantes do rock dos nossos dias. Com decibéis, com estilo e com canções. Nem todos se podem gabar do mesmo.
Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 19)
| | |