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DEALEMA
SETE ANOS NO TIBETE
O tão antecipado álbum de estreia dos Dealema finalmente chegou para reparar uma injustiça que já perdurava há uns bons sete anos. A gracejar este momento, estão as participações de Serial, Ace, Presto, Sam The Kid e Marta Ren dos Sloppy Joe. É uma celebração nacional pelo regresso e consolidação do quase lendário grupo nortenho, quase votado ao esquecimento.

Dj Guze, Expião, Fuse, Maze e Mundo não estão propriamente de volta, a verdade é que nunca estiveram totalmente ausentes. Mas interessa assinalar que pela primeira vez, o super-grupo das margens do Douro, que operara sempre e apenas em participações, maquetas e EPs, assina o primeiro álbum sob o nome do seu colectivo, Dealema, a banda de hip-hop nortenha com mais popularidade na cena nacional a seguir a Mind Da Gap. O estado de atraso, para não dizer de ausência, sentido por parte da comunidade adepta à banda traçava já auras de mito fazendo parte da conversa habitual entre os mais veteranos e nostálgicos fãs do hip-hop luso. “Quando é que sai?” perguntavam uns, “Eles ainda estão juntos?” inquiriam outros. Mas o inevitável aconteceu, o álbum saiu e ninguém os censurou pela longa espera, o clima é antes de alívio e satisfação. Compreender este disco obriga a traçar a evolução da banda a partir do longínquo ano de 1996, altura em que os amadoríssimos Factor X e Fullashit se juntaram para formar Dealema. Torna-se depois claro que apesar da demora, o tempo decorrido serviu para criar a estrutura e razão de ser deste disco homónimo. Estão aqui sete anos de memórias do quinteto, sete anos de reflexão, sete anos de letras e rimas criadas, recicladas e acumuladas, basicamente sete anos de preparação para este momento. Quase que podemos chamar a este disco uma colectânea ou até álbum tributo realizado pelos próprios homenageados, pois celebra a duração e essência da banda, e simultaneamente a espera que foi “infligida” ao faminto publico. À boa maneira do estilo e gosto do grupo, todos os elementos que caracterizavam as faixas órfãs de Dealema no passado continuam de acordo com o costume. Prolifera a crítica social dita “construtiva”, ataques verbais às massas portuguesas, tanto as do presente como as do passado. Os esboços cinzentos e cruéis da sociedade portuguesa e os relatos mais dramáticos surgem directamente dos casos vividos pelos membros da banda, que recordam entre dor e conforto, amigos, situações e lugares. Mas o ponto forte e escolha primordial do quinteto em termos musicais continua, o lado hardcore. Esta especial apetência dos Dealema para faixas mais agressivas também não se diluiu com o tempo, mas ao mesmo tempo mostra que conseguem manter uma consistência variada com aproximações ao R&B ou imbuírem-se do espírito mais “street” da velha escola em que os scratches imperam. Este álbum “Dealema” veio dar o espaço para construir e fortalecer a qualidade e os dotes que os cinco nunca puderam expor na sua inteira dimensão, a derradeira ocupação de um disco inteiro, só para eles.

Vasco Rebelo
(Mondo Bizarre # 17)