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DEATH IN VEGAS
A PICADA DO ESCORPIÃO
O regresso dos Death In Vegas faz-se com o contagioso "Scorpio Rising". Sucessor do excelente "The Contino Sessions", segundo álbum da dupla - Tim Holmes não entra em "Dead Elvis" -, e tal como este recheado de uma panóplia de convidados diversificada. “Scorpio Rising" é um disco para guardar na nossa caixinha de tesouros.

A aventura Death In Vegas começou em 1993, em Londres, com Richard Fearless aos comandos da nave espacial e Steve Hellier como seu ajudante. Fearless, que era DJ residente do clube londrino Heavenly Social, juntou-se a Hellier, técnico de som da BBC, com o objectivo de começar a criar música que se afastasse daquela que, como DJ, costumava passar. O resultado foi "Dead Elvis", editado em 1997, o primeiro álbum dos Death In Vegas. Mais dub e menos pop-rock do que os discos seguintes, "Dead Elvis", não tem a força, a corrosão ou a (ilusória) tranquilidade dos temas de "The Contino Sessions" e "Scorpio Rising".

"Dead Elvis", e em especial "Dirt" o primeiro single extraído do álbum, é um tubo de ensaio para as ideias de colagem e fusão de géneros de Fearless. Mas, "The Contino Sessions", já é a obra de um cientista perfeitamente ambientado, que encontrou o fio condutor da sua experiência e também o ajudante de laboratório ideal: Tim Holmes, um velho amigo de Fearless. O álbum tem trance, trip hop, rock, pop, misturados, reciclados, cosidos uns aos outros, navegando num universo onde o hipnotismo e a cadência da música de dança se cruzam com a crueza e a pujança do rock.

"The Contino Sessions" não é um álbum solarengo ou de digestão fácil. Por entre as matizes cinzentas e as tonalidades soturnas, irrompem ruídos perturbadores ou ritmos furiosos, que nos empurram para um quarto escuro, claustrofóbico. "Aisha", o tema "narrado" por Iggy Pop (um dos convidados do álbum, a par de Bobby Gillespie Dot Allison ou Jim Reid) é um bom exemplo da atmosfera opaca, espessa, soturna, que domina o disco. "Scorpio Rising", o novo álbum dos Death In Vegas, gravado entre Londres e a Índia, apresenta o conjunto de temas mais pop e rockanderolescos do grupo mas também um mergulho na música tradicional indiana. O disco tem vários pontos de contacto com "The Contino Sessions", mas, mais do que uma réplica do seu antecessor, é o continuar de uma ideia. Se "The Contino Sessions" tinha em "Aisha" o seu culminar de psicose e de hipnotismo, "Scorpio Rising", tem, no repetitivo e penetrante "Hands Around My Throat", cantado por Nicola Kuperos, o seu momento mais "mortal".

Depois, o disco avança para uma mistura de suavidade etérea, "23 Lies", na voz Susan Dillane, ou "Diving Horses", interpretada por Dot Allison e vestígios de folk em "Killing Smile", cantado por Hope Sandoval. E há ainda o tema título e "So You Say You Lost Your Baby". O primeiro vê Liam Gallagher cantar a mais negra, fatalista e agressiva letra com que o vocalista dos Oasis alguma vez se confrontou. Por cima de uma muralha de sons psicadélicos, Liam vai cantando uma rebuscada e complexa mantra, que, juntamente com a intensidade da música, faz de "Scorpio Rising" uma das mais escuras canções pop dos últimos tempos. Por seu lado, a muito retro, "So You Say You Lost Your Baby", cantada por Paul Weller, é a canção de amor do disco. Tudo somado, "Scorpio Rising", é um disco estranho, variado, que vale a pena ouvir com atenção e sem preconceitos.

Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 13)