Desert Sessions
A Bela e os Monstros da Idade da Pedra
“Desert Sessions Vol. 9 & 10”. Para ouvir e coleccionar. Ou a prova em como a criatividade não falta lá para os lados do deserto. É que Josh Homme, dos Queens Of The Stone Age, reuniu outra vez os amigos e gravou mais uma das suas “Desert Sessions” que resultou num excelente e surpreendente álbum de canções incidentais onde pontua a grande PJ Harvey.
Sessões no Deserto. Volumes 9 e 10. Para os viciados nos devaneios de Josh Homme e sua pandilha estas sessões já não são mistério. Para todos os outros convém esclarecer. Após o término dos míticos Kyuss e por altura da fundação dos Queens Of The Stone Age (QOTSA), Josh Homme reúne antigos conhecimentos e institui uma semana de gravações, a ser repetida com regularidade, no estúdio Rancho De La Luna, em Joshua Tree (Califórnia). Surge assim uma instituição verdadeiramente alternativa – porque tudo é possível – destinada a explorar o improviso e a criatividade de um colectivo variável de nómadas musicais onde, para além do mentor e dos seus comparsas nos QOTSA, se incluíram desde então antigos elementos dos Kyuss, Monster Magnet, Soundgarden, Earthlings?, Masters Of Reality e até dos Motley Crüe. Dos improvisos gerados nesta experiência fora do comum, onde os músicos vão tentando sonoridades sem apego a qualquer tipo de currículo musical, surgiram inúmeras bizarrias próprias de quem passou muito tempo ao sol do deserto ou de quem não se absteve do consumo de substâncias ilícitas. Mas surgiram também boas canções entre as quais algumas que viriam a ser reaproveitadas pelos próprios QOTSA, como “Monster In The Parasol”, “Hanging Tree”, ou “Avon”, editadas desde 1997 para cá em formato vinílico de 10 polegadas, depois reunido aos pares em CD (daí a numeração).
Chegamos a 2003 e os Queens deixaram de ser o segredo bem guardado de um culto de ferrenhos do “stoner” para passarem simplesmente a uma das melhores e mais inventivas bandas rock da actualidade. Entretanto, e digressão após digressão, o círculo de amigos alargou-se para albergar também músicos do lado de cá do Atlântico, entre os quais James Lavelle, dos U.N.K.L.E., Martina Topley-Bird, antiga companheira de Tricky, e… PJ Harvey. Polly Jean, que foi entretanto convidada e - mulher sem receios – aceitou integrar, em Fevereiro último, as sessões no deserto californiano. E diga-se que a sua passagem por estas bandas é tudo menos ocasional.
A autora de “Stories From City, Stories From The Sea” infiltra-se num meio habitualmente muito masculino e dado a auto-indulgências, criando uma tensão inabitual nestas gravações e por arrasto elevando-lhes o nível. No meio de um naipe de luxo onde se conta o mentor dos Masters Of Reality e produtor, Chris Goss, o ex-baixista dos Marilyn Manson e agora nos A Perfect Circle, Twiggy Ramirez, ou o seu companheiro de banda, Josh Freese, ela resplandece, cantando em quatro canções para além de tocar baixo, piano, saxofone, melódica e pandeireta noutras tantas. Sem perder o lado improvisacional, o colectivo responde da melhor maneira e produz um conjunto de canções absolutamente brilhante, que dão direito a single e tudo, com o futuro clássico dueto entre PJ e Homme, “Crawl Home”. Canção de tons ameaçadores e guitarras de ressonância surf que vai fazer as delícias das MTVs desse mundo. Aliás a tensão feminino/masculino presente nesse tema funciona um pouco como sumário de toda a restante música, já que a libido anda à solta em canções como “I Wanna Make It Wit Chu”, “A Girl Like Me”, “Crawl Home”, “Powedered Wig Machine” ou “I’m Here For Your Daughter”.
As sessões 9 (entitulada “I See You Hearing Me”) e 10 (“I Heart Disco”) desta série são definitivamente as melhor gravadas e as mais acessíveis até à data denotando um amadurecimento notório do projecto. Desde o título de abertura, “Dead In Love”, canção épica em duas partes que não desmerecia lugar num futuro álbum dos Queens, passando por “A Girl Like Me”, canção que por sua vez não ficaria mal num próximo disco de PJ Harvey, ou “There Will Never Be A Better Time” – PJ a uivar de cio acompanhada pela guitarra em toada flamenco de Chris Goss, num registo one-take só possível num âmbito como o das “Desert Sessions” – a fasquia vai bem alta. Não faltam também as alucinações já clássicas por aqui como “Covered In Punk’s Blood” (rajada metálica com as “fuckin drums” de Joey Castillo dos QOTSA, o “fuckin bass” de Ramirez e a “fuckin guitar” de Homme) ou “Creosote” (bizarria acústica com Dean Ween, dos bizarros Ween). Longe está, portanto, o “stoner rock” ou por alguns apelidado o “som do deserto”. No deserto passam-se agora coisas cada vez mais estranhas e transbordantes de inventividade. Estes dois novos volumes são, portanto, mais e melhor do mesmo com canções e equações musicais com capacidade para surpreender e arrastar todos os incautos que lhes ponham os ouvidos em cima.
Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 17)
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