DESTRUIÇÃO: O PUNK EDIFICADO EM GUY DEBORD
PARTE II
O ideário “do-it-yourself” praticado singularmente pelo Punk, cuja principal alavanca foi McLaren na encarnação dos Sex Pistols, já é semeado pelos situacionistas em 1960. Na Internacional Situacionista 4, de 17 de Maio, o papel do sujeito comum (imberbe e roufenho nas grandes massas) pode ser o de realizador artístico e o nascimento da máxima "faça-você-mesmo" fica visivelmente perceptível. "Inauguramos agora o que será, históricamente, o último dos ofícios. O papel de situacionista, de amador-profissional, de anti-especialista, é ainda uma especialização até o momento da abundância económica e mental, no qual toda a gente se tornará 'artista', num sentido que os artistas não alcançaram: a construção da própria vida".
A questão da erudição sonora proposta pelos praticantes do chamado Rock Progressivo (que reinou despoticamente em respeitável parte dos anos 70, e terminou por desencadear outra legítima revolta Punk), é homóloga ao desgosto tanto de punks quanto de situacionistas, na figura de Debord, ao carácter experimental da música. Johnny Rotten celebrizou-se ao vestir uma camisola com os enfáticos dizeres "I Hate Pink Floyd" na época em que a banda era a divindade intocada da geração progressiva e gigante da música pop de então.
Em 1967, em véspera dos Pink Floyd lançarem o primogénito álbum "The Pippers Gates of Dawn", o baixista Roger Waters escreveu uma espécie de mini-manifesto, distribuído pela editora inglesa EMI como parte da estratégia de divulgação. Nessa época, o rótulo "Rock Progressivo" nem tinha sequer sido inventado e o sistema nervoso da banda ainda era Syd Barret, que vitimado de outra modalidade de misantropia, a lisérgica, foi literalmente segregado da banda no disco seguinte. Waters parece escarnecer do sentido "anti" do qual certos movimentos se revestem. O que diz no manifesto soa como uma réplica à negação da música experimentalista que Debord tanto execrava e um anticorpo contra a aversão e o ódio dos punks ao Rock Sinfónico de 10 anos mais tarde. "Tocamos como queremos e o que achamos de novo. Somos a orquestra do movimento alternativo, porque tocamos o que as pessoas livres querem ouvir. Não somos um anti-grupo, não somos anarquistas: somos a favor da liberdade, da criatividade e da beleza."
O caso envolvendo a música (talvez a única ramificação das artes que se pode dar ao luxo de renegar padrões rígidos de educação) também foi a fagulha de desencontros ideológicos na Internacional Situacionista. Dicotomias internas, envolvendo conceitos díspares de um mesmo credo, deixaram à mostra a ausência de dinâmica interna. Um desses embates sucedeu-se entre Debord e o músico situacionista Walter Olmo, que apresentou um texto chamado "Por um Conceito de Música Experimental". O escrito, radicalmente rechaçado por Debord, onde Olmo relatava as suas pesquisas musicais referentes a construções de ambiências, é relegado à "atitude típica do pensamento de direita". O ensaio custou a expulsão sumária de Olmo da Internacional Situacionista. Outra polémica de Olmo em torno das experimentações é relacionada com a invenção do tereminófano, uma traquitana emissora de notas, variáveis conforme o vai e vem de pessoas numa galeria de arte.
No cerne dos situacionistas, nova incompatibilidade é denotada pela ala de Munique, representada pela revista Spur (traço, ou caminho), editada pelo Gruppe Spur em 1960. O Spur apostava na produção colectiva e não-competitiva da arte, contrastando com os arraigados objectivos de supressão propostos por Debord. "A arte não tem nada a ver com verdade. A verdade está entre entidades. Querer ser objectivo é ser parcial. Ser parcial é pedante e entediante...NÓS EXIGIMOS O KITSCH, o LIXO, O ESCARRO PRIMORDIAL, O DESERTO. A arte é o monte de excrementos no qual o kitsch cresce. Em vez de idealismo abstracto, queremos niilismo honesto", atestava a reclamatória de 1961, publicada no periódico.
Em 1978, o activista situacionista David W., centrado em Guy Debord, no texto "The End of Music", reprova o trabalho do programador visual do Sex Pistols, Jamie Reid. O designer era colaborador de um veículo oficial dos situacionistas, o Point Blank, e utilizou algumas das imagens que produziu na capa do single "Pretty Vacant". Pelo ponto de vista de W. Reid estava a suprimir a renegada King Mob de trabalhos pertencentes à Internacional Situacionista. "Malcon McLaren", diz ele, "empresário dos Sex Pistols, foi amigo de indivíduos versados na crítica situacionista na Inglaterra e apropriou-se de alguns dos slogans e atitudes daquele ambiente...O EP 'Pretty Vacant' foi promovido por um poster com fotos cortadas de dois autocarros a andar na direcção das palavras TÉDIO e LUGAR NENHUM imagem tirada directamente das páginas de Point Blank".
Quando, em 1989, Debord publicou um dos seus últimos escritos, "Comentários Sobre a Sociedade do Espectáculo", dizendo que as premonições feitas em 1967 se tornaram verdades, fez apenas uma ressalva: a Sociedade do Espectáculo, no mundo contemporâneo, transmutou-se numa nova forma, definitivamente integrada no espectáculo. De maneira análoga ao Punk, Debord privilegiou um estilo de vida às margens dos oficialismos; das artes, da política e das instituições. Em Dezembro de 1994, contando então 64 anos e vivendo no mais restrito isolamento, Debord opta pelo suicídio. A imprensa francesa, que o havia repudiado durante mais de quarenta anos, de maneira absurdamente irónica, constrói sobre ele o estereótipo de celebridade "hollywoodesca", reprocessando o seu libelo, de pífio subproduto cultural, a objecto de culto em diversos países. Tal como ocorreu com o Punk, à medida em que, de underground, passou a Top Of The Pops, A Sociedade do Espectáculo, contra a qual Debord e o Punk se debateram a vida inteira, não concedeu indulgências nem mesmo aos seus maiores visionários.
Cristiano Bastos
(Mondo Bizarre # 5)
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