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DJ SHADOW, EL-P, BULLLET, THE STREETS
Hip-Hop e a Técnica de Contar Histórias
Quatro produtores brancos da classe média, dois americanos, um inglês e um português assinalam este ano com discos a solo. O resultado são quatro personalidades e narrações totalmente diferentes. Um cenário cibernético revela as ruas movimentadas de uma grande cidade enquanto um coleccionador de discos raros é seguido por um agente da KGB. Quatro pequenas histórias do universo hip-hop.

Grandmaster Flash, em entrevista nos anos 80 tentou explicar essa incompreendida e radicalmente nova forma de fazer música. A ideia partia em detectar um espaço de tempo numa música que o agradasse. Cortava esse segmento e colava-o numa faixa nova repetindo-o de modo a que prolongasse o prazer de ouvi-lo. Este é sem dúvida o conceito original, o motor inicial do hip-hop, o motor que tem alterado tão profundamente a música nos últimos 20 anos. Nascido nas comunidades urbanas negras dos EUA, o hip-hop tornou-se a música mais popular e o verdadeiro rosto das novas gerações afro-americanas. Mas na sua expansão pelo mundo fora, o hip-hop atravessou e quebrou quaisqueres barreiras raciais ou sociais. Em relação ao processo de produção em si, a revolução seria ainda maior. Pela primeira vez, jovens e ambiciosos músicos, muitas vezes solitários encontravam neste processo, a forma mais perfeita e satisfatória de fazer musica. Não era preciso aprender a tocar um instrumento. Não era preciso sequer compor algo totalmente novo que pudesse agradar ao ouvido. Bastaria mergulhar numa fonte inesgotável de música previamente editada e manipulá-la para criar algo totalmente inovador. O método de criar música através do sampling e do recurso a novas máquinas fez com que o hip-hop adquirisse em poucos anos ramificações tão numerosas que ainda hoje termos como «trip-hop» ou «downtempo» inundam o vocabulário musical para tentar agrupar e identifcar as muitas variações que irromperam nos últimos anos. A Mondo Bizarre observa quatro discos deste ano. Quatro produtores fora do molde convencional do hip-hop generalista. São brancos da classe média, seguem uma filosofia individual e livre de fazer música, e são essencialmente contadores de histórias, longe dos habituais discursos de violência/gajas/guita com que a MTV nos ensurdece.

DJ Shadow, ou Josh Davies, começou desde miúdo a gravar excertos de som de programas de televisão, rádio, discos e conversas para montar pequenas criações sonoras que o interessavam. Quando começou a ouvir Art Of Noise e a compilação Street Beats da Sugarhill Records, o seu amor por corte e colagem de sons voltou-se para a música, mais específicamente para o hip-hop. Shadow, no seu trabalho, procura uma aproximação estritamente instrumental (raramente utiliza emcees) para contar as suas histórias. Toda a arquitectura sonora que monta segue uma lógica narrativa que não deixa escapar detalhes. Prefere não revelar o signficado de cada som ou loop dos seus temas deixando que as suas histórias tenham uma infinita qualidade interpretativa. Shadow compara este processo a uma fibra-óptica: o máximo de informação canalizado através de uma só linha de comunicação. No seu segundo álbum de carreira "Private Press", Shadow abandona o funk para nos dar amostras de rock, folk, electro-pop dos 80´s e alguma electrónica contemporânea. Sente que o hip-hop não tem motivos para saturar ao estar dependente do soul, funk e r&b. Afastou-se desta fonte para criar algo de novo com “Private Press”, e conseguiu-o de forma exemplar. O disco revela a fluidez com que Shadow manipula o estado de alma de um tema parando e modificando uma batida a meio de uma canção sem nunca cair no excesso da repetição. Para Shadow, aquilo que faz é essencialmente o hip-hop, e despreza outras classificações. Evita também a ostentação egocêntrica tão comum nos músicos da sua área e apresenta uma analogia do ciclo da vida ao próprio hip-hop. Um dia somos os maiores samplando dezenas e dezenas de artistas que morreram para a música mas amanhã seremos nós perdidos nessa pilha de discos na cave de um futuro produtor. “Private Press” é uma espécie de tributo aos “freaks” colecionadores de discos e produtores de garagem como ele. Um termo usado nesse meio para descrever uma editora que lança um disco se o artista pagar o que for preciso.

O senhor que se segue atende pelo nome de El-P. El-P é um produtor nova-iorquino, ferozmente independente e defensor do hip-hop no seu estado mais puro. Colaborou com vários artistas incluindo DJ Shadow e participou em projectos como Aesop Rock e Techno Animal. O seu nome será eternamente ligado aos Company Flow, que sob a mão da Rawkus Records conquistou o respeito dos hip-hoppers tradicionalistas. Foi também membro e colaborador dos Cannibal Ox, projecto que colheu louvores do lado de lá da fronteira do hip-hop “normal”. Acaba de ser lançado o seu último trabalho entitulado “Fantastic Damage”, um disco com uma atmosfera supreendente, pois consegue ser tão destrutivo como hipnotizante revelando a forma única de El-P fazer hip-hop. Em relação a rótulos ou regras da sua música, El-P responde com irritação. O hip-hop é o método musical que adoptou, e nunca deve ficar preso a uma sonoridade dita “verdadeira” sendo a experimentação e a progressão as únicas regras que segue. “Fantastic Damage” consegue estar tão longe de Company Flow como está de Cannibal Ox, respira um ar de mechanização sinistra sempre revivida com o mesmo sample robótico que abre e surge em cada tem do disco. Tem ao seu dispor dois emcees para narrar a acção enquanto prossegue a história, aplicando uma leve carga agressiva ao cenário.

Já os Bulllet são um projecto musical nacional mas que respira uma dimensão além-fronteiras. Baseado numa inteligente história de espionagem dos anos 70, o disco serve ao mesmo tempo de banda sonora para uma viagem musical a tendências sonoras dessa mesma década. A encabaçar este trabalho está Armando Teixeira, homem de vários projectos. Foi membro dos Da Weasel, Bizarra Locomotiva, Ik Mux e Balla. O projecto Bulllet, apresenta um novo alter-ego, Vladimir Orlov, um espião russo do tempo da Guerra Fria. O álbum "The Lost Tapes” tem como objectivo apresentar a banda sonora de um filme sem imagem pois a história passa-se toda dentro do próprio disco. Um agente da KGB ucraniano, infiltrado na Turquia observa e regista a presença de submarinos nucleares americanos numa base da Nato. Paralelamente, participa na cena experimental jazz local. O álbum é como um filme de espionagem, os elementos musicais remetem para as supostas composições do misterioso Orlov. Sendo um álbum instrumental tem ainda a participação dos dedos mágicos de Nel Assassin, «scratcher» dos Micro. O jazz e o dub respiram por este trabalho mas é um obra fortmente enraízada no método e na sonorização hip-hop. Um marco luso nesse género sempre em expansão que merece toda a atenção.

E somos assim chegados ao último dos nossos escolhidos: Mike Skinner. Skinner era um perfeito desconhecido, um jovem e solitário Inglês que fazia música trancado no seu quarto em Londres. O seu álbum de estreia “Original Pirate Material”, editado sobre o nome de The Streets concedeu ao anónimo Mike a fama, graças às poucas máquinas e discos com que criou o seu primeiro trabalho a sério. É mais um exemplo de como a rudimentar tecnologia hip-hop fez com que uma voz na multidão se abrisse para o mundo. A música de Mike nada tem a ver com o glamour ou narcisismo do mainstream Americano. O disco dos habita na rua e leva-nos a habitar o mundo único do próprio Mike Skinner. O cenário abre-se sobre as ruas de Londres, apinhadas, cinzentas e desumanas. Mike narra a vida dos jovens que passeiam sem rumo, que se encontram em fast-foods, tendo como único sinal de ostentação as vestes que os identificam. O próprio álbum revela uma vida que prefere a solidão e vê o mundo ao seu redor como algo frio e impessoal formado por dezenas de histórias das vidas com que se cruza na rua. O som produzido pelos Streets, identifica-se como sendo uk garage e hip-hop, mas também se notam pedaços de two-step, ska e dub. Mike usa aquilo que ouve e que transmite instintivamente, preferindo utlizar o seu rap numa entoação de puro sotaque inglês, tornando “Original Pirate Material” numa expressão genuína e localizada do hip-hop, versão classe média inglesa.

Vasco Rebelo
(Mondo Bizarre # 12)