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EELS
ALMA DEPURADA
Em "Souljacker", os Eels destilam aos olhos do mundo um conjunto compacto de peças sonoras repletas de conceitos e fantasmas desenterrados. Para confirmar já no próximo dia 24 em concerto no Paradise Garage.

Ao comando desta nau neurótica encontra-se Mr. E, velejador experiente das dúbias e profundas águas da mente. No confronto de titãs que protagonizou na sua carreira musical, o homem do leme desceu ao Tártaro em "Electro-Shock Blues" e ascendeu a um inesperado estado de graça em "Daisies Of The Galaxy". E se o primeiro se reveste de uma negritude densa conotada com a morte da mãe e suicídio da irmã, o segundo contrapõe a dimensão 'arte pela arte' à outrora explorada 'arte como escape'.

No período que antecedeu a edição deste "Souljacker", os Eels parecem ter encontrado a serenidade necessária para a composição de um álbum conceptual e ventilado. Ainda assim, temas obscuros continuam a pular a cerca na consciência de quem escuta este trabalho. Simplesmente, a sua abordagem é mais contida e envolta numa manta sonora mais apelativa.

Koool G Murder, John Parish e Joe Gore compõem o ramalhete de convidados num disco que faz desfilar personagens analisadas à lupa do espírito crítico. 'Jungle Telegraph', por exemplo, é o relato da vida de alguém que nasce durante uma tempestade, prostitui-se, mata um homem em legítima defesa e foge para a selva africana para passar a viver numa árvore. Em 'Fresh Feeling' escutamos um sample de 'Selective Memory', tema incluído no álbum "Daisies of the Galaxy". 'What is This Note' e 'World of Shit', por seu turno, são os temas mais paisagísticos do disco.

O termo "Soul Jacker" surgiu na imprensa norte-americana nos anos 90 para catalogar um serial killer que afirmava não apenas matar mas também roubar a alma das suas vítimas. O universo deste álbum desenvolve-se a partir da ideia de que alguém pode retirar-nos a alma, não sendo, por isso, um documento histórico desse período sangrento nos Estados Unidos. Trata-se de mais uma incursão ao fantástico mundo dos Eels. Esteticamente, é um bom disco rock. E chega. Ou, como diz DJ Killingspree, "the hardest rocking substance known to man". Para ouvir com alguma insistência.

Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 9)