ELLIOTT SMITH
O CAMINHO ATÉ À COLINA
A morte laminou mais uma vez a música. Elliott Smith, um dos maiores songwriters americanos, pereceu aos 34 anos. Presumivelmente, suicídio. Será que algum dia perceberemos a razão pela qual a história trata de obliterar os seus mitos?
Smith, nasceu Elliott aos 13 anos, após se ter mudado do Nebraska natal para os subúrbios de Dallas. Nessa altura, houve os primeiros acordes de Dylan e vicia-se nos sons de Liverpool. Smith confessou em várias ocasiões o seu fascínio pelos Beatles, chegando a afirmar em tom de brincadeira que procurava ser a fusão de Lennon com McCartney, uma espécie de super-herói da canção. As influências são suficientemente sedutoras para escrever as suas primeiras composições. Pouco tempo depois aparca em Portland. Aí, junta-se aos Heatmiser, banda punk da década de 90, com quem gravou três álbuns e de quem disse várias vezes não ser suficientemente boa para ser recordada. Paralelamente à sua colaboração com os Heatmiser, Smith avança para a edição a solo. Pára na transmutação do formato canção. Em 1994, sopra “Roman Candle”, estreia auspiciosa, confessional, carregada de arranjos sedutores. Seguiu-se o álbum homónimo em 1995, despido de ornamentos mas carregado de perfeitas infusões líricas. Em 1997, o momento. Hipoteticamente, a viragem que levou Smith a seguir o caminho que glorifica o mito: a morte. Com a desarmante melancolia de “Either/Or”, com a sua cintilante simplicidade, Smith abre horizontes e chama a atenção de Gus Van Sant, renomado realizador indie que introduz a música de Elliott Smith na banda sonora de "O Bom Rebelde". Gus, tornar-se-ia, aliás, visita habitual nos clubes por onde Elliott tocava e um dos seus maiores fãs. Na ressaca da nomeação para o Óscar, de melhor canção com "Miss Misery", assina em 1998 pela Dreamworks e grava o fabuloso “XO”. A sua escrita sublime é servida por vários trilhos sonoros. Temos elegância intercalada com rudeza. Um jogo de subversão, de lugares, de recortes inesperados. 2000, assinala o arrojo de Elliott, e simultaneamente o princípio do silêncio. "Figure 8", álbum de extremos – obra maior, amada e odiada, apresenta-se como figura de estilo orquestrada. Ruptura assumida. O recolhimento, a introspecção tomam conta de Elliott Smith. Refugia-se, então, na montagem do seu estúdio pessoal e no seu aperfeiçoamento técnico. Desfiando os últimos três anos de Elliott contam-se as digressões incompletas, os concertos com alinhamentos vadios, algumas altercações com a policia, passagens pelas dependências, tratamentos médicos, a criação de uma fundação de apoio a crianças vítimas de abuso sexual e a elaboração de um novo e aguardado álbum.
"From A Basement On The Hill" seria o próximo álbum de Smith. Dele fazem parte temas com suspeitas nomenclaturas que sugerem o inevitável. Em breve, far-se-á luz sobre "A Distorted Reality Is Now Necessary To Be Free", dar-se-ão respostas a "Fond Farewell" e a "Shooting Star". Mas perceberemos algum dia o silêncio dos justos?
Ficam as imagens: a kali tatuada no seu braço, a dependência tatuada na sua veia, o isolamento tatuado no seu corpo. E as palavras: “I'm in love with the world, through the eyes of a girl, who's still around the morning after; Make me a present, make it something sweet small enough to go unnoticed and big enough to compete”; memórias de um talento que dói ver perdido.
Um mestre da perturbação, o selvagem da escrita, disse um dia: "todos vivemos na merda, mas alguns de nós conseguem ver as estrelas"...retracto de Elliott, metáfora de uma vida...
Nuno Oliveira
(Mondo Bizarre # 17)
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