ELLIOTT SMITH
A ÚLTIMA VALSA
Elliott Smith desapareceu há um ano. "From A Basement On The Hill", o primeiro póstumo, é o rascunho possível do que poderia ter sido um dos mais conseguidos trabalhos do norte-americano.
Outubro de 2003 foi um mês negro para os fãs da música escrita com o coração na palma da mão. Elliott Smith, dos seus mais distintos representantes, morreu. O seu corpo foi encontrado em casa, com uma faca espetada no peito. A namorada, que estaria por perto aquando da fatalidade, prestou assistência ao cantor e chamou os paramédicos, mas Steven Paul Smith encontrara já o caminho para o descanso há muito ansiado.
Apesar das depressões recorrentes, dos flirts com droga e álcool e das letras a condizer, o desaparecimento de Elliott Smith apanhou de surpresa mesmo aqueles que conviviam mais de perto com o músico. A preparar aquele que seria o seu sexto álbum de originais, o norte-americano, nascido em Portland, no estado do Oregon, tinha acabado de completar 34 anos e apresentava, nos últimos tempos, sinais de desanuviamento mental e libertação do jugo dos narcóticos.
No testamento, um pouco como o companheiro na má fortuna, Jeff Buckley, Elliott Smith deixou um álbum por acabar. “From A Basement On The Hill”, cujo lançamento vinha sendo adiado sucessivamente, encontrava-se, à data da morte de Smith, mais adiantado que “Sketches (For My Sweetheart The Drunk)” na altura em que Buckley Jr. se afogou no Mississipi. Mas não é essa a ideia com que se fica às primeiras audições do disco póstumo de Elliott Smith.
Mais roufenho, mais rock, ligeiramente mais psicadélico até, são as impressões causadas pela faixa de abertura de “From A Basement On The Hill”, “Coast To Coast”. A família de Elliott Smith, que decidiu tomar em mãos a conclusão do disco alguns meses após a sua morte, chamou para presidir ao processo o produtor Rob Schnapf, colaborador de longa data do malogrado cantor, e Joanna Bolme, ex-namorada do artista e baixista dos The Jicks, de Stephen Malkmus. Afastado do estúdio ficou assim David McConnell, com quem Elliott Smith cozinhara, meses a fio, o som de “From A Basement On The Hill”. Uma semana antes da saída do disco, McConnell afirmou, à imprensa norte-americana, que a família do intérprete havia tomado a decisão errada, branqueando o som de um disco que o seu ente querido queria mais escuro, mais rijo.
Com ou sem “lápis azul”, “Songs From A Basement On A Hill” é diferente. Há no sucessor de “Figure 8” uma queda para um rock bruxuleante que traz à memória artistas aparentemente desconexos: Stone Roses, Brendan Benson, o próprio Buckley de “Sketches (For My Sweetheart The Drunk)”, numa luxúria mais presente, menos passiva.
Como se tornara previsível a partir de “XO” (1998), Elliott Smith praticava também, nas suas derradeiras composições, uma maior complexidade de arranjos, buscando nas melodias novos segredos e caprichos. A guitarra eléctrica alia-se, em “From A Basement On The Hill”, ao piano, no qual se haviam ancorado algumas das mais perfeitas canções de Elliott Smith (“Waltz #2”, “Son Of Sam”) e alojado o código genético de Ed Harcourt ou Badly Drawn Boy. Mas o crescendo de recursos é gerido com perícia, fazendo com que as 15 faixas do disco não soem, nunca, demasiado cheias ou pomposas.
A encantadora simplicidade de Elliott Smith permanece, de resto, intocável em músicas como “Pretty (Ugly Before)”, “King’s Crossing” ou “Twilight”. Por mais complicado que seja imaginar o que teria sido este disco se acabado pela mão do cantor, é legítimo alvitrar que “From A Basement On The Hill” apresentava todos os requisitos para se tornar um dos trabalhos mais equilibrados e conseguidos de Elliott Smith, cuja voz continuou, até ao fim, a prestar vénias a uma maciez tocante.
Derrotadas e conformadas, as suas palavras são setas de veludo, certeiras, dirigidas a um mundo ao qual pareceu, quase sempre, estranho. É mais fácil do que saudável encontrar prenúncios de morte na letra de “Fond Farewell” ou “Strung Out Again”. Mas “From A Basement On The Hill” era, muito provavelmente, apenas mais uma batalha de um homem em luta constante, algo tímida mas recorrente, desde o tempo em que fugia da banda grunge em que chegou a alinhar para se embalar ao som das suas próprias canções, nos bastidores dos concertos.
Desconhecendo-se por enquanto a existência de gravações capazes de sustentar uma panóplia de edições póstumas, “From A Basement On The Hill” é um capítulo importante, ainda que inacabado, da obra de um dos mais pungentes intérpretes e compositores dos anos 90. Nos sites mantidos em sua memória, os muitos fãs prometem perpetuar a adoração, manufacturando e lançando documentários e livros sobre o ídolo desaparecido – algo que Elliott Smith teria possivelmente aprovado, já que, quando ouvia a alguém que as suas músicas eram tristes, respondia com surpresa: “Mas faz-me tão feliz tocá-las!”.
Lia Pereira
(Mondo Bizarre # 21)
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