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EMOCORE
À FLOR DA PELE (PARTE 1)
Nunca estive em Washington D.C., nunca atravessei o oceano para me perder no rebuliço do Sonho Americano. Nunca tive a sorte de ver com os meus próprios olhos vestígios do punk "yankee" de 80. Mas isso não importa.

Se voltássemos ao princípio dos anos 80, encontrávamos dentro do mundo punk americano desses anos, duas faces: o Oeste e o Este, duas faces bem definidas e com centros marcados em São Francisco e Washington D.C., respectivamente. Se num dos locais tínhamos o punk mais político e descarado, no outro surgia a rebelião da atitude positiva perante a música punk. Duas faces, da mesma moeda.

O punk-hardcore tem sido um estilo de música e de vida que sempre gerou um poliformismo muito heterogéneo dentro de si próprio. Seria difícil imaginar, naqueles dias da década de 80, no que se veio a tornar actualmente. A década de 80 deu-nos grandes bandas, grandes discos e novas perspectivas de um cenário por vezes tão amorfo. Mas talvez, o melhor tenha vindo depois. A década de 90 gerou uma série de tendências dentro do punk-hardcore, que quase alteraram o próprio conceito musical. Não me refiro à vertente metal dentro do mesmo, mas pelo contrário, à emoção contida e desgarrada de uma nova forma de tocar punk. EMOção através da música, sentimento por vezes tão fora de contexto.

Tal como em cima referi, nos Estados Unidos existiam dois focos. Dois focos com bases sólidas mas certamente distintas. Falar de emo ou emocore nos Estados Unidos, é viajar até Washington D.C. e falar de Rites Of Spring, Fugazi, Nation Of Ulisses, e outros vultos de uma cidade marcada pela dissonância musical, e pela visão vanguardista de uma nova forma de tocar punk. Fazer punk com sentimento e emoção, sem se utilizarem fórmulas previamente conhecidas, tocar com qualidade, melhorar as composições, experimentar novos ritmos, novas vozes, dar uma nova visão a algo que parecia estar num beco sem saída em relação à posteridade.

Ainda que os Fugazi tenham sido tomados como referência de uma cidade por todos conhecida, a sua música foi exemplo de inovação, com muita energia punk mas também com sensibilidade, e sobretudo com letras e uma forma de compôr nova e apaixonante. Sentimento e emoção, livre expressão das sensações e inquietações de cada pessoa como ser humano. Não esquecendo que a origem dos Fugazi esteve em bandas como os Minor Threat, e sobretudo os Rites Of Spring, provavelmente a primeira banda emo considerada como tal.

As particularidades desta nova tendência dentro do punk-hardcore espalharam-se pelos Estados Unidos em princípios da década de 90, e ainda que a par dos Fugazi tenham surgido outras bandas que podem ser consideradas como emocore, foi a Washington que coube a "glória" e "fama" de tal "achado". De facto, desde o estado de Washington até ao outro lado do país, surgem bandas que, inconscientemente ligadas à parafernália do grunge, seguem directrizes semelhantes àquilo que se produz em Washington D.C.. Exemplos claros são os Sunny Day Real Estate ou os Seaweed, ou inclusivamente os Pond. Destaquam-se ainda bandas que dentro de um âmbito algo mais "punk", se movem em águas semelhantes: Still Life, Universal Order Of Armaggedon, Current, etc... todas estas de diferentes estados do país que enriqueceu o chamado emocore.

E não falamos só de vozes roucas e soltas com bruscas mudanças de ritmo, passando da absoluta calma para a frenética fúria de instrumentos e vozes. O emocore é por vezes uma fusão entre indie-rock e punk-hardcore, pelo menos actualmente assim o é, sobretudo aquele que, salvo algumas excepções, hoje em dia nos chega dos EUA. Musicalmente, aproxima-se daquilo que uma banda de indie rock pode oferecer, possuindo contudo uma atitude e maneira de ser claramente punk-harcore. É essa a diferença.

Mas se realmente queremos obter um conhecimento mais amplo daquilo que o Emocore foi e é, temos de regressar ao velho continente e dar umas voltas pelo cena francesa.

A França dos princípios dos anos 90, abarcava o verdadeiro conceito daquilo que se entendia como emocore. Essa faceta que as bandas gaulesas adoptaram na sua música, na sua forma de reflectir sentimentos e emoções, transformou o conceito de Emocore em quase todo o mundo. Um estilo peculiar e uma música melancólica, por vezes desoladora, são a sua marca de referência.

J. António Dominguez - Tradução: Ana Gandum
(Mondo Bizarre # 8)