EMOCORE
À FLOR DA PELE (Parte 2)
Tal como já tinha referido no artigo anterior, o emocore não se desenvolveu apenas em solo americano, tendo na Europa um especial relevo em França.
No início da década de 90, dá-se uma espécie de transição na cena punk-hardcore francesa, procurando-se agora novas directrizes face ao cenário mais generalizado dos esquemas sonoros dos anos 80. Revela-se então a criatividade das bandas, que começam a romper clichés dentro da música e das letras. O punk-hardcore deixa assim de ser um simples instrumento de crítica social e de difusão de mensagens para uma juventude rebelde perante o sistema, tornando-se algo mais criativo, pessoal e mais vasto. As letras começam a abordar diferentes temáticas: desde o sofrimento do indivíduo perante o mundo, à situação da mulher na sociedade, ou à própria cena punk-hardcore, e sobretudo começa a estar presente uma forte EMOtividade nas canções. Isto origina textos enriquecedores, aos quais está subjacente uma crítica profunda ao quotidiano, algo que evidentemente reflecte as raízes e vínculos do emocore ao punk-hardcore, uma vez que o emocore não pretende renegar a atitude punk, nem tão pouco as condutas D.I.Y. (Do It Yourself), que pelo contrário saem favorecidas, pretendendo sim romper clichés e abrir a mente das pessoas.
Em termos musicais, as bandas emocore francesas possuem características definidas, por vezes estandardizadas. A sua sonoridade não costuma possuir ritmos rápidos nem estruturas simples. As canções são muito mais trabalhadas e longas que o usual, com mudanças de ritmo e guitarras intercalando melodias e tonalidades a enriquecerem o conjunto, às vezes adornadas com descargas um pouco mais metal, ou incorporando novos elementos musicais como por exemplo os trompetes. Destaque-se acima de tudo as vozes, agora plenas de tortura e emotividade, alternando momentos de uma certa calma, com partes quase "faladas", onde se vislumbra o desespero próprio do cantor. Destaque-se também a riqueza que advém da língua francesa, tendo em conta que a maior parte das bandas se expressam na sua língua materna.
Citemos então nomes importantes dentro desta teia musical do emocore em França. As bandas clássicas foram essencialmente: os Thrill Of Confusion, com um single editado e uma demo; os Shatter The Myth, com vários singles editados; os Peu Être, que foram uma das bandas mais importantes do início da década de 90, uma referência do emocore francês em toda a Europa, com vários singles e um CD editados, este último partilhado com mais duas bandas. E ainda os Symptom Of Isaac, que lançaram também um excelente single; os Fingerprint, uma outra banda com singles e demos, que lançou igualmente toda a sua discografia em CD, tornando-se também uma referência; Vanilla, banda super activa que editou singles e álbuns; Anomie, também ela uma importante referência do emo gaulês, sobretudo pela grande quantidade de discos que veio a editar até há bem poucos anos, possuindo uma sonoridade quase mais hardcore e por vezes um pouco crua, mas com uma voz feminina que chegava a arrepiar. Outras bandas também importantes daquela altura foram os Undone, cuja sonoridade era mais metal e rápida que a das restantes bandas, mostrando serem super potentes e possuidores duma notável e desgarrada voz, chegando a editar vários singles e um LP; os Ananda, um dos primeiros grupos com duas vozes, masculina e feminina, e sobretudo uma das primeiras bandas a possuir uma sonoridade mais metal e potente, e cujo jogo desgarrado das vozes criava uma autêntica muralha sónica. Os Ananda editaram uma boa quantidade de discos e até há pouco tempo davam concertos. Outra banda marcante são os Ivich, cujo primeiro single é para mim uma verdadeira jóia, construindo, com uma sensibilidade enorme, canções rápidas, belas e directas, utilizando um trompete para acompanhar certas partes das mesmas. Esta banda chegou mesmo a editar um 10 polegadas, entre outros discos, sob o reconhecido selo da Ebullition americana.
Para terminar este mostruário das velhas glórias do emocore francês, deveria citar outros grupos que também deram o seu contributo nos últimos anos de esplendor deste estilo: os L'Invention De Morel, os Carther Matha e os Rachel. Todos eles tiveram um começo promissor no inicio dos anos 90, mas infelizmente o seu percurso revelou-se infrutífero. De qualquer forma, ainda partilharam um disco, no caso dos Cartger De Matha e dos Rachel, com os Peu Être, e no caso dos L'Invention De Morel, reeditaram a sua demo nos Estados Unidos, em formato 7 polegadas.
Alguns membros dos Peu Être formaram os Alcatraz, este que foi sem dúvida o grupo que pretendeu recuperar o espírito de todas essas bandas dos anos 90, e que lançaram já neste século uns singles e um disco.
Actualmente, poucas bandas francesas mantêm activo este tipo de sonoridade, muitas desapareceram e as poucas que sobreviveram foram alterando os seus esquemas sonoros, adaptando-os a coisas mais actuais, o que acaba por ser natural. Pelo menos, toda aquela actividade musical que originou editoras como a Stonehenge Records e a Le Brun Le Roux Corp. conferiu um importante papel à França dentro da cena punk-hardcore mundial, não excluindo que ainda possam vir a surgir projectos musicais tão interessantes quanto estes, que tanta vida deram à Gália. Que não se diga que em França apenas existe tranquilidade e bons vinhos...
J. António Dominguez - Tradução: Ana Gandum
(Mondo Bizarre # 9)
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