EMOCORE
À FLOR DA PELE (PARTE 3)
Por vezes torna-se difícil resumir um determinado estilo estilo músical numa série de artigos ou capitulos epistolares. A verdade é que dentro dos emocore surgem bastantes discrepancias e diferentes pontos de vista acerca do que poderiam ser os aspectos a ter em conta com este estilo ou se preferirem, tendência musical.
Desde o primeiro artigo tentei reflectir a relação que existe entre a “militancia” punk e o emo do que uma evolução do rock, como ultimamente se pretende ver. Depois de várias conversas com algumas pessoas decidi expôr uma visão geral sobre algumas bandas que também se podem englobar dentro do “emo”.
Será importante mencionar algumas bandas que nos últimos anos se tornaram bastante populares e às quais os media facilmente colocaram na prateleira do emo. Os caso mais visíveis podem ser encontrados nos Estados Unidos através dos The Promise Ring (Milwaukee) ou dos Jimmy Eat World (Arizona). Ambas conseguiram conjugar o emocore mais óbvio com o indie rock de uma maneira enérgica e revitalizada, desenvolvido num bom reportório discográfico, que as ajudou a amadurecer e a crescer durante os últimos três anos.
No caso dos Promise Ring, evoluiram a partir de das canções cheias de energia com recortes de voz apaixonados para um convensionalismo pop de “Very Emergency”, o seu último disco. Quanto aos Jimmy Eat World aconteceu o inverso, não de uma forma directa mas sim quase intencional. As suas primeiras gravações destilavam sentimento e emotividade a rodos, com breves rasgos de energia cativantes. No último álbum, “Bleed American” tornaram-se mais “punk”, não no sentido estrito da palabra, mas sim no facto da composição das melodias estar pejada de energia e intensidade, ainda que continuem a ligados aos seus primeiros tempos mais emotivos.
Tudo isto leva-nos a pensar que ambas as bandas são o expoente do movimento emo-indie americano. Algo que não será apenas exagerado ou erróneo, mas demonstrativo que estão mais próximos do rock do que do emo, e que cada vez mais os media tendem a classificá-los de “college rock”, desse que predomina nas rádios universitárias americanas, ouvidas por milhares de jovens por todo o país.
Outra banda que poderíamos unir a este leque seriam os The Get Up Kids, um quinteto de Kansas City que partindo de um esquema apoiado em certos contrapontos do hardcore melódico e com a inclusão de teclados nos seus temas, de uma maneira elegante e acertada, têm sabido construir canções compactas, bem elaboradas e cheias de sentimento e emotividade juvenil muito pessoal e característico. Esta fórmula tem sido demonstrada em discos como, “Red Letter Day”, “Something to Write Home About”, entre outros, e numa postura em palco dinâmica e credível. Chegado a este ponto, e já que me aproximo da linha imaginária que separa o hardcore melódico do hardcore emotivo, devo desviar a atenção para uma cidade da Flórida chamada Gainsville, de onde provém os Hot Water Music. A banda tem sido aclamada pela crítica hardcore punk pela sua maneira de tocar e cantar, pelo seu conceito pessoal de harcore punk emotivo e melódico. Pela paixão que transmitem quando tocam ao vivo, essa energia desenhada através de textos introspectivos e cheios de vivências, e sobretudo porque ainda que afastados do conceito “college rock”, eles rockam como ninguém, a sua música baseia-se num rock atrevido, encorpado, sem truques, mas sobretudo, com energia e emotividade como só eles saber fazer.
Ainda assim não podemos esquecer outras formações que sem ter que seguir os passos destas bandas, forjaram carreiras igualmente interessantes. Um caso bastante actual, sem bem que talvez diferente na abordagem musical, muito mais intenso, mas de igual modo emotivo, foram os At The Drive-in. O quinteto de El Paso, engrandeceu o seu nome com “Relationship of Command”, editado pela defunta Grand Royale, pertença dos Beatie Boys. A energia e a paixão destilada pelos cinco elementos é tal que fazem lembrar os bons tempos do emo americano, ainda que estes tenham, talvez, uma visão mais retro do que o emo foi naquela altura. Possivelmente, os At The Drive-in são mais inovadores, mais virados para as guitarras... Possivelmente são mais uma boa banda de emocore.
Remontando-nos à década passada, encontramos bandas que fizeram as delícias de muitos rapazes e raparigas que deliraram com as melodias cheias de sentimento em detrimento da frustação, essa energia que se revolvia na sua própria agonia e estala por momentos. Os Mineral foram uma banda que soube reflectir esse aspecto de uma maneira extraordinária. Ainda que já se tenham separado, e que os seus membros estajam espalhados por bandas como os Pop Unknown ou The Gloria Record, os Mineral editaram dois discos soberbos: “The Power of Failing” e “End Serenading”. Pessoalmente, considero os Mineral uma banda emo-indie por excelência. O seu primeiro disco, “The Power of Failing”, editado pela Crank Records, uma editora emo que continua a dar a conhecer excelentes bandas, é de audição obrigatória.
Em meados dos anos noventa projectos como os Christie Front Drive ou Texas Is The Reason editavam parte dos seus trabalhos e abriam um espaço importante dentro do emo mais indie. Ambas guardavam a mesma distância no desenvolvimento das suas canções, mas conservam e exploram essa emotividade que as faz grandes. Os Christie Front Drive compuseram temas longos, quase instrumentais, criando atmosferas tão belas e emotivas que se tornam difíceis de descrever, quanto mais de imaginar. Por outro lado os Texas Is The Reason conseguiram captar a atenção da Revelation, uma editora mais virada para as lendas do “old school” americano. O quarteto novaiorquino encandeou a crítica, com o álbum “do you know who you are?” de 96, com a sua música cálida e compacta. De facto, algumas das bandas com quem partilharam o catálogo, como os Shades Apart ou os Farside desenvolveram um estilo não muito equidistante do quinteto de Nova York.
A verdade é que esta visão generalista do emo indie americano, deixa dentro do tinteiro bandas menos conhecidas, mas igualmente interessantes, como os Cross My Heart, Give Until Gone, Cap ‘n’ Jazz, Franklin, Sensefield, The Crown Hate Ruin, Karate, entre outras, para além das bandas influenciadas pelo rock de D.C. e muito mais...
Na Europa também surgiram nomes importantes dentro do emo indie como Bob Tilton, Schema, Tribute, Baby Harp Seal, Month Of Birthdays, Spy Vs Spy, todas de Inglaterra, Reno Kid e Pale, da Alemanha, Starmarket, Only If You Call Me Jonathan, Last Days Of April, da Suécia, etc.
E que não se diga que na Europa não há sentimentos, porque o simbolo do Euro (€) também é o do emo...
J. Antonio Dominguez
(Mondo Bizarre # 10)
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