ERLEND OYE
O DJ FELIZ
É norueguês e é a metade do duo Kings of Convenience, juntamente com Erik Glambek. Colaborou com os Röyksopp, mantém uma postura tímida e acaba de editar o seu primeiro álbum a solo, “Unrest”. A música vem de um músico nórdico, mas não é por isso que se revela menos “quente”…
Erlend Oye é um DJ feliz. E destila felicidade com a sua música, ainda que a palavra melancolia não lhe seja estranha. Gosta de remexer nas referências electro-pop dos anos 80, mas também não se inibe de afirmar que sente influências do krautrock e gosto por uma certa experimentação no formato pop canção. Com o seu olhar despreocupado, visual retro (óculos de massa à anos 70) e uma equilibrada dose de ironia fina (aquele sorriso ao mesmo tempo cínico e displicente), Erlend Oye facilmente passaria por alguém que achamos que não devemos levar muito a sério. O seu colega do duo estava demasiado ocupado a estudar psicologia, não restando outra possibilidade a Erlend senão aventurar-se a solo numa viagem por dez cidades com vista à gravação do seu primeiro registo de originais (com outros tantos dez produtores distintos). Tarefa ambiciosa que revela uma personalidade vincada e um arrojo musical assaz pertinente.
“Unrest” é, como se vê, um disco de canções. Uma espécie de songwriter electrónico moderno, à semelhança de um Schneider TM (que aqui também assina a produção de um tema). Os dez temas que constam deste primeiro álbum a solo denotam um gosto peculiar pelas estruturas de canção electro-pop e downtempo (por entre algumas pinceladas acústicas), com vocalizações e ambiências algures entre as reminiscências romântico-decadentistas dos Soft Cell ou Pet Shop Boys (uma influência assumida) e a melancolia sofisticada e electrónica de uns Lali Puna. Não é dizer muito nem pouco sobre o disco. É dizer que Erlend procurou neste álbum conjugar a sua candura e placidez vocal com as programações electrónicas dançáveis, numa tentativa, como ele diz, de “humanizar as máquinas”, de lhes extorquir a emoção escondida. Para Erlend, as emoções estão em primeiro lugar, sendo que as máquinas apenas constituem um meio para chegar àquelas.
Como fã dos A-Ha, o músico norueguês procede a uma ligação subliminar entre a pop electrónica deste grupo com uma certa vertente mais underground e alternativa. Mas sem nunca deixar de lado a faceta lúdica e emocional que a exploração do formato canção pode proporcionar. Depois, parece que cada um dos dez produtores diferentes do disco quis imprimir um cunho próprio a cada tema, potenciando ao máximo a multiplicidade de elementos de interesse ao disco. “Unrest” é pois um desfilar de canções electro-pop alegres mas pintalgadas de um melancolia delicodoce, num manifesto musical onde a sensibilidade do seu autor encaixa, de forma luminosa e discreta, com os seus propósitos estéticos mais profundos.
Victor Afonso
(Mondo Bizarre # 14)
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