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ESSAY COLLECTIVE
ENSAIO SOBRE O SINCRETISMO
Não se trata de uma banda, embora o possa parecer à primeira vista. É um colectivo, ou antes, uma “collectividade”, como eles gostam de ser chamados. É a coesão entre os seus membros, aparentemente tão forte e tão inédita, que nos conduz ao engano. Um caso único e francamente recomendável.

É raríssimo encontrar núcleos com as características deste em Portugal, senão mesmo inédito, quer em termos de trabalho, quer na forma exterior que adquire, quer na qualidade com que se apresenta, ainda que este último seja, como sabemos, um aspecto subjectivo. Comecemos por ser objectivos, então, deixando para o fim todas as questões mais sujeitas à opinião do escriba. A Essay Collective, ou a Collectividade do Ensayo, reúne mais de duas dezenas de “colectivizados”, entre produtores, músicos, designers, managers, etc, espalhados pelo país. Alguns deles são já conhecidos de outras andanças, como é o caso de Rom (primeiro factor comum observável do exterior: todos eles escondem as suas verdadeiras identidades atrás de pseudónimos), que participou na colectânea “Volun”, da mono¨cromatica. O espírito é o da união de esforços: embora haja composições próprias de cada músico, a collectividade ganha personalidade e créditos próprios ao sustentar uma complexa rede de colaborações, de produções e de remisturas cruzadas entre si. Toda a gente a trabalhar no mesmo. O espírito é também o do “faça-você-mesmo”: a maior parte do trabalho é feita em casa. O lema de um dos sites produzidos pela collectividade é, aliás, “diy or die” (ver www.opensourcelabel.tk). Se não se consegue editar um disco, abre-se um servidor de ftp – basicamente um computador a servir ficheiros (mp3s, neste caso) – ou grava-se uma cassette (a sair em breve, com selo Lengalenga). Ou então junta-se dinheiro para gravar um CD com quatro temas, como aquele que agora foi editado para fins promocionais.

A ideia é, convenhamos, bastante atractiva, quanto mais não seja do ponto de vista formal. Mas é mais do que isso. Há, para além desta análise objectiva, e depois de se ouvir a música, espaço para uma grande dose de esperança no trabalho da Collectividade. O “output” que daqui tem vindo a sair ao longo dos últimos dois ou três anos é do melhor que já se conheceu por cá. É certo que haverá muitas arestas por limar – falamos de produções de índole quase artesanal – mas aquilo que aqui se escuta, desde o dub electrónico de Rom aos beats “diabólicos” de DJ Must B, passando pela click’n’pop de Toy Shop Kid(s) ou pela poesia sonora filiada nos Múm de Daily Misconceptions, deixa-nos felizes por sabermos que eles estão aqui mesmo ao nosso lado e não num outro qualquer canto do mundo, onde “as coisas sempre acontecem”. A propósito disso, e sem querer abusar da comparação, o trabalho da Collectividade faz lembrar – em certa medida, sublinho – o da editora islandesa Kitchen Motors e das suas felizes experiências de reunião de músicos dos Múm, dos Apparat Organ Quartet ou dos Sigur Rós, entre outros. Seria um inestimável prejuízo para os aficionados da arte musical que todo este trabalho da Essay Collective ficasse pelo caminho.

Vítor Junqueira
(Mondo Bizarre # 16)