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THE EVENS
O EQUILÍBRIO DOS SEXOS
Os Evens marcam o regresso de Ian MacKaye às lides musicais, já que os seus Fugazi continuam silenciosos desde “The Argument”, de 2001. Um regresso em formato duo, como parece estar agora na moda. E mais ainda na moda pelo duo se completar com uma mulher, Amy Farina. A única coisa que aqui não está na moda é a música que ambos criam.

Já o sabemos, desde tempos imemoriais, que quando um homem e uma mulher se juntam em completa simbiose, daí só poderá nascer algo perfeito. Os Evens são o último exemplo desta constatação. A começar pelo nome, onde se equilibram dois músicos, duas vozes, dois instrumentos. Ian MacKaye (Teen Idles, Minor Threat, Fugazi) em guitarra barítono e Amy Farina (The Warmers) na bateria despem os respectivos passados punk-rock-hardcore de Washington DC e imprimem aos seus instrumentos o tom da simplicidade. O resultado são doze variações minimais à volta daquilo que poderia ser a base de qualquer canção rock. Sem grandes devaneios. Sem grandes invenções. Sem inúteis demonstrações de virtuosismos.

Sem pomposas demonstrações de técnica. Mas com um grande espírito, com uma intensidade sempre latente e com muita subtileza. E desenganem-se aqueles que pensam que este é um disco de MacKaye acompanhado por Farina. Aqui mais uma vez o nome do projecto faz todo o sentido. Este é um verdadeiro trabalho a dois, em que não é necessária qualquer quota para garantir que a metade feminina é absolutamente essencial para o equilíbrio musical da banda. O primeiro tema, “Shelter Two”, fundamenta desde logo esta simbologia em torno do par, e dá também, desde logo, mote para o sentimento que marca o disco desde o início: “it’s all down hill from here”. Ou seja, isto é bom, mas vai saber a pouco. De resto está lá tudo: desde a denúncia da corrente legislação americana e a inevitável reeleição do inevitável Bush, até à complexidade das relações a dois (outra vez o par).

Desde “All These Governors”, um “elogio” aos governadores, no bom estilo cómico-político-cáustico a que MacKaye nos habituou, a “Sara Lee”, o derradeiro sussurro da intimidade, passando por “Blessed Not Lucky”, o tema em que os Evens se aproximam mais dos Fugazi. Não os Fugazi estridentes de “Repeater”, mas os Fugazi introspectivos de “Instrument”. O projecto nasceu no Verão de 2001, sem um conceito de banda no horizonte.

Só no final de 2003 decidiram gravar algumas das suas canções espartanas. Uma demo com 9 temas lançou-os numa digressão de seis meses pelos EUA e o contacto com o público foi a melhor forma de apurar os sons que resultaram neste disco.

Aliás, segundo consta, ao vivo os Evens tocam sentados, emitem as suas vozes através do amplificador da guitarra em vez do habitual PA. E nos intervalos das músicas interagem com o público, com histórias, humor e incentivos à participação, sempre com o intuito de estabelecer um nível de honestidade e familiaridade. O mesmo que se sente em “You Won't Feel a Thing”, quando MacKaye e Farina cantam a duas vozes: "sit back, relax, let go, you won't feel a thing, until the day you wake up". Simples, não é?

Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 22)