THE FALL
A LUTA CONTINUA
Com uma existência que remonta ao final dos anos setenta e com dezenas de álbuns no activo, o que se encontre todos os dias, os The Fall, de Mark E. Smith, são uma raridade. Seja pela longevidade, seja pelo carácter irrascível do seu líder. “The Unutterable”, saído no final do ano passado, mantêm toda a fúria dos primeiros discos.
Em 1977 Manchester era um fervilhar de bandas, ideias, acontecimentos. Rapidamente a cidade se tornou um dos centros do punk e da new wave britânica, dando ao mundo os Joy Divison, os Buzzcocks, e os Fall. Com um nome tirado do livro homónimo de Camus, Os Fall (ou seja, A Queda), tiveram em “Short Circuit, Live At The Electric Circus”, um disco que se tornou um marco do espírito manchesteriano da altura, a sua primeira exposição pública. Seguiu-se “Live At The Witch Trial”, o álbum de estreia, que era um chinfrim desenfreado e descoordenado. Depois vem “Dragnet”, o primeiro mergulho dos Fall no universo da dança, aqui ainda em estado latente. A seguinte realização do grupo digna de nota é “Hex Enduction Hour”, disco onde a paranóia sonora é domesticada e transformada em canções hipnóticas e ritmadas. “Perverted By Language” e “The Wonderfull and Fightening World Of The Fall”, dois trabalhos de raiz mais pop, muito influenciados pela então mulher de Mark, Brix E. Smith.
1985 é o ano de “This Nation Saving Grace”, o disco mais emblemático da banda. Manifesto político, saído da cabeça de Mark ao observar a Inglaterra infeliz e quase destruída de Margaret Tatcher, “This Nation Saving Grace” é a primeira síntese coerente entre o rock áspero, visceral e sórdido dos Fall com os sintetizadores, tudo condimentado por guitarras ferozmente sónicas. E a política continua a ser o mote de “Bend Sinister” um regresso ao som sujo e pouco sofisticado dos primeiros tempos. “Extricate” de 1990 é o paraíso dos sintetizadores e caixas de ritmos e abre caminho para este “The Unutterable”. “The Unutterable” saido no final do ano passado, é uma sumula dos sons praticados pelos Fall ao longo dos seus 23 anos de carreira. As guitarras rugem sob um fundo maciçamente electrónico e dançável por cima do qual Mark E. Smith continua a cuspir as suas vítriolicas letras. Os Fall nunca tiveram uma carreira de sucesso, nunca arrebataram os primeiros lugares do top mas permanecem uma referência incontornável da música britânica. Presume-se que assim será até ao dia da morte de Mark E. Smith.
Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 6)
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