FIREWATER
CASINO ROCK
Apesar da localização geográfica, este quarteto de Nova Iorque, não segue as leis da moda para a nova época Outono/Inverno. Os Firewater fazem rock sem segundas intenções e já o faziam em 1996. Agora regressam com “The Man On The Burning Tightrope”, um novo álbum originais e têm na calha “Songs We Should Have Written”, um disco de versões.
Em 1996 os Firewater foram aclamados como uma selecção de esperanças de gente ligada ao punk e a um certo rock alternativo. “Get Of The Cross We Need The Wood For The Fire”, disco de espírito cosmopolita, transpirava o ambiente das ruas, dos amores desavindos nos ghettos de Nova Iorque, das tarantelas e tangos e histórias de gente malfadada, numa interessante e divertida visão neo-realista. Uma autêntica constelação de estrelas, incluindo Tod Ashley (Cop Shoot Cop) e Duane Denison (Jesus Lizard), abria perspectivas a um rock acutilante e directo, sem pretensões intelectuais (nem tal seria suposto), mas que tinha como orgânica a riqueza cosmopolita da sua música, o sentido de humor sarcástico e um toque cinematográfico que remetia para parte da obra de Scorcese e Copolla. Dois anos depois da auspiciosa estreia, o gang abandonou as ruas, mudou-se da Jetset para a Uptown e especializou-se em golpes de maior dimensão. Foi o que aconteceu com os dois discos seguintes “The Ponzi Scheme” de 1998 e “Psychopharmacology” de 2001 , este novamente na Jetset e já sem Duane Denison que entretanto formou os Tomahawk.
Perdeu-se, entretanto, alguma da alma inicial do projecto, as derivações para uma vertente mais universal com a inclusão do bouzouki, violino, acordeão e djembe, que deixaram de ser presença tão assídua na música dos Firewater, como que vulgarizaram a coisa, facto que não foi condição para nos afastar do projecto, mas que de certa forma constituiu um passo atrás na promissora fórmula do primeiro disco.
Esta fórmula sequencial de passos à frente e atrás, aplica-se na perfeição ao novo “The Man On The Burning Tightrope”, já que a pandilha de Tod A, agora mais aburguesada, se converteu de vez aos encantos das danças de salão, numa vasta cartilha de malabarismos musicais. Por aqui ouvem-se tangos, valsas e polkas agora em versão casino, com direito a frenéticos arranjos de metais e tocadas de forma exímia, facto que não é suficiente para devolver à banda o fulgor artístico dos seus primórdios.
Dos Firewater espera-se ainda, para o início de 2004, um disco de versões, ironicamente denominado “Songs We Should Have Written”, que contém, entre outras, versões de “Folsom Prison Blues” de Johnny Cash, “Some Velvet Morning”, de Lee Hazlwood e imagine-se, de “Paint It Black”, o perigoso tema psicadélico-oriental dos Stones (entenda-se perigoso pelo facto implícito de se criar uma versão de um tema sublime, sem a certeza quanto à mais valia da mesma, situação que se aplica à esta versão Firewater). Com esta nova propensão para bailaricos e versões, quem sabe teremos brevemente os rapazes no casino, vestidos a rigor para uma noite de gala em que tudo poderá acontecer, incluindo alguns encontros menos recomendáveis com gente bem vestida mas mal encarada, ou talvez e apenas uma noite de pura diversão.
Paulo Coelho
(Mondo Bizarre # 17)
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