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THE FLAMING LIPS
Sonhar é Preciso
Depois do aclamado "The Soft Bulletin", é agora a vez de "Yoshimi Battles The Pink Robots" ocupar o trono do reino da fantasia pop. O grupo de Wayne Coyne regressa às edições discográficas numa altura em que planeia realizar um filme chamado "Christmas on Mars" que Coyne define como um cruzamento entre "2001 Odisseia No Espaço" e... David Lynch. Bem vindos ao maravilhoso mundo dos Flaming Lips!

Há quase vinte anos que esta banda tem vindo a oferecer ao mundo alguma da música mais onírica, cósmica, surreal, mágica e estranhamente bela de que há memória. Se os primeiros discos revelavam um som caótico, resultado de "bad trips" daquelas mesmo beras (são conhecidas as histórias relacionadas com drogas ao longo do percurso da banda), álbuns posteriores já da década de 90 como "Transmissions From The Satellite Heart" ou "Clouds Taste Metallic", representam a transição para uma paisagem sonora mais aberta que abraça a pop (alucinada, distorcida, bizarra, mas mesmo assim, pop...) em sintonia com a sempre presente veia psicadélica. Produto do uso de substancias alucinógénicas ou não, esta é uma música que apela à estimulação da mente, espécie de loucura controlada que convida ao alargamento das fronteiras da imaginação, como que um regresso à infância e à sensação de deslumbramento dessa fase da vida.

Contando com a ajuda na produção de Dave Fridmann, os Lips são das bandas mais criativas da actualidade, ao utilizarem as possibilidades das técnicas de estúdio como mais um importante instrumento, na concepção de uma música aventureira, à semelhança dos processos utilizados por grupos da mesma família como os Grandaddy, Olivia Tremor Control ou a banda-irmã Mercury Rev.

Sem nunca terem obtido resultados comerciais significativos (com a excepção de "She Don't Use Jelly", um mini-hit nos Estados Unidos), os Lips têm visto o seu público crescer nos últimos anos, muito por culpa de boa parte da imprensa musical mais influente que elegeu "The Soft Bulletin" como um dos melhores álbuns de 99.

O novo álbum "Yoshimi Battles The Pink Robots", evidencia os Lips em plena posse das suas capacidades criativas. O talento para compor canções encantadoras mantém-se, o que, aliado a um notável sentido de experimentação lúdico e ao recurso da electrónica (que ganha aqui mais espaço na música do grupo), resulta na confecção de peças quase perfeitas da mais magistral pop sinfónica filtrada pelos já habituais devaneios psicadélicos. O álbum entra no campo da ficção científica, com as letras de Coyne a abordarem a relação homem/máquina, morte, perda ou solidão. A melancolia está presente em boa parte dos temas, mas o tom geral do álbum é de esperança. Há momentos em que o universo da banda se aproxima das bandas sonoras dos filmes da Walt Disney, com o uso de orquestrações sintetizadas que conferem uma vertente épica a este trabalho. Ouvindo canções plenas de sofisticação pop e ousadia estética como "The Fight Test", "Yoshimi Battles The Pink Robots Part 1", "Do You Realize?" ou o belíssimo "All We Have Is Now", fica a sensação de que os Flaming Lips conseguiram aquilo que parecia impossível: gravar um álbum ainda melhor que "The Soft Bulletin". Abram a vossa mente, oiçam esta obra-prima e façam boa viagem no reino de fantasia faz-de-conta dos Flaming Lips.

Nuno M. Castêdo
(Mondo Bizarre # 12)