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FRANK BLACK & THE CATHOLICS
VIAGENS NA MINHA TERRA
Quase uma década após a separação dos Pixies, Frank Black & The Catholics atravessam um período fecundo com a edição simultânea de dois álbuns através da Cooking Vinyl. "Devil's Workshop" e "Black Letter Days" são os dois volumes de um diário de bordo que não devem ser lidos separadamente.

No início de 1993, Black Francis (rebaptizado de Frank Black para a sua carreira a solo) dissolve os Pixies, formação que liderava e que revolucionou as ondas hertzianas das 'college radios'. Nos álbuns editados em nome próprio, Frank Black executa um trabalho de guitarras refinado, fruto da colaboração com Eric Drew Feldman, antigo elemento dos Pere Ubu, mas é quase sempre a sua veia melódica que dilata as notas que toca. O primeiro, auto-intitulado, foi lançado no ano em que os Pixies foram a enterrar e apresenta um leque variado de extensões da pop, colocando a descoberto as vísceras do surf rock e do heavy metal. Sucede a este, logo no ano seguinte, "Teenage Of The Year", um disco angular, muito diverso e bem recebido pela comunidade de críticos. Contudo, não conseguiu permanecer nas tabelas de vendas mais do que duas semanas. Black abandona as editoras Elektra e 4AD em 1995, assinando um contrato com a American nos Estados Unidos e a Sony na Europa.

O primeiro álbum para estas etiquetas, "The Cult Of Ray", viria a ser editado em Janeiro de 1996, mas fica à margem das expectativas comerciais. No início do ano seguinte, a American experimenta problemas financeiros e encerra as portas. Frank Black, que tinha gravado um disco com os Catholics, a sua banda de suporte, vê a sua edição atrasada durante um ano. Em 1998, assina pela Play It Again Sam em Inglaterra e lança "Frank Black & The Catholics" na Primavera. Em Agosto desse ano, a spinART edita o álbum nos Estados Unidos. Seguem-se "Pistolero" e "Dog In The Sand", este editado ainda no decurso do ano passado. "Devil's Workshop", a primeira das duas partes da edição de 2002 de Frank Black, apresenta-se simples e de curta duração. No seu alinhamento estão canções de uma rudeza à flor da pele, que recordam os momentos mais duros de discos como "Teenage Of The Year" ou "Dog In The Sand". O som surge saturado, estando preenchido por uma voz ora apaziguadora, ora desconcertante que comunga da plasticidade das guitarras. Este, como o outro disco, exibe retratos tirados durante longas viagens pela Costa Ocidental. A paisagem sonora é árida e críptica ("Bartholomew'", por vezes sinistra e vaga ("His Kingly Cave'", outras vezes luminosa e incendiária, como em "Out Of State" e "Modern Age". Tida como uma das primeiras canções que Black escreveu, o lado B "Velvety Instrumental Version" dos Pixies é versionado sob a designação de "Velvety". "Black Letter Days" é um trabalho maior em tamanho, maior também na ambição. Balizado por duas versões de "The Black River" de Tom Waits, esta segunda parte é um compêndio de histórias narradas em tom confessional ("California Bound" e "Cold Heart Of Stone"), num registo forte (como em '1826') ou a um ritmo galopante, por exemplo, em "Whispering Weeds". À semelhança de "Devil's Workshop", este álbum arranca de uma forma impetuosa mas vai, progressivamente, desacelerando, o que torna a audição da parte final do disco um pouco mais ligeira e comedida.

Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 13)