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FRANZ FERDINAND
ART ATTACK
São a nova sensação do rock britânico e estreiam-se no início de 2004 com um primeiro álbum excelente que revela uma banda confiante e da qual se espera o melhor para o futuro. Oriundos de Glasgow, cidade escocesa de forte tradição na zona indie e vistos por muitos como a resposta britânica aos Strokes, os Franz Ferdinand possuem uma vertente arty à semelhança de grupos como os Talking Heads ou Wire. No entanto as magnificas canções do grupo são muito mais do que isso.

Para o bem e para o mal, o mundo pop-rock alimenta-se constantemente de hypes. Se, por um lado, por vezes torcemos o nariz quando nos querem vender a última grande maravilha da ciência, por outro, estes piques de entusiasmo que crescem como bolas de neve, contagiando tudo e todos, fazem falta, pois devolvem-nos a impressão de que algo de excitante está a acontecer, a agitar as águas. Apesar do seu carácter efémero, há um lado importante nas modas, empurrando a criação artística para a frente e recontextualizando preciosos elementos do passado no presente. Na música popular, esse processo autofágico, desde que feito com imaginação e com um cunho próprio, não se limitando a reproduzir descaradamente a sonoridade desta ou daquela banda, pode ser um exercício saudável.

Os britânicos, com uma indústria de entretenimento poderosa e uma enorme herança musical (mais na pop do que no rock) são peritos em fabricar hypes e espalhar a boa nova pelo mundo inteiro. Se o britpop está mais que morto e enterrado, existe agora uma nova geração de bandas a desabrochar e o entusiasmo da imprensa musical é tão grande que há quem diga que, nas ilhas britânicas, este é o momento mais excitante para se formar uma banda, no que diz respeito aos últimos 25 anos. Funeral For A Friend, Eighties Matchbox B-Line Disaster ou Duke Spirit são alguns dos nomes actualmente em efervescência no cenário rock britânico. No entanto, os índices de histeria mais elevados devem-se aos Franz Ferdinand, de Glasgow. Reza a lenda que o primeiro concerto aconteceu no verão de 2002, numa exposição de uma amiga. Em entrevista ao New Musical Express, o vocalista Alex Kapranos conta que tocaram apenas quatro temas (voltaram a repeti-los porque não tinham mais canções) actuaram sem PA, com a voz ligada a um pequeno amplificador, mas ficaram surpreendidos por verem toda a assistência a dançar, o que os levou a pensar que estavam a fazer algo da forma certa. Dois singles fortes, “Darts Of Pleasure” e “Take Me Out”, e bem sucedidas digressões, especialmente a que realizaram no ano passado com os excelentes Fiery Furnaces, começaram a criar um “following” considerável de convertidos, com a crítica a não poupar elogios.

Atente-se em “Take Me Out”, canção espantosa que desobedece por completo à noção de single radio-friendly: começa com a tensão das guitarras e da voz para subitamente desacelerar e transformar-se num brilhante momento indie-disco, como se fossem duas canções numa só. Estes quatro rapazes já ouviram muita coisa e devem ter as suas colecções de discos bem recheadas. Têm as referências musicais certas no momento certo. Em “Franz Ferdinand”, o aguardado álbum de estreia agora editado pela prestigiada Domino, ouvem-se ecos de Interpol, Strokes e bandas mais antigas como os Television ou Gang Of Four, ainda que não sejam politizados como estes últimos e prefiram jogar com uma certa ambiguidade em letras sobre amor, sedução ou sexo. Alem disso, são rapazes que foram estudantes de arte e são bem parecidos, de postura cool, factores que são sempre uma boa ajuda para ganharem notoriedade. Apesar do sucesso que estão a alcançar, fazem questão de tocar no Chateau, a casa de eleição dos artistas dissidentes de Glasgow, sinal que continuam fiéis às suas origens. Há aqui obviamente um lado arty, que lhes confere uma aura de intelectuais, a perfeita art-school-band que toda a comunidade indie britânica se apressou a eleger como a sua favorita. E haverá razão para tanto barulho à volta dos Franz Ferdinand?

Bom, este quarteto não vem revolucionar nada ou salvar o rock. São “apenas” uma banda que parece compor com grande naturalidade canções frescas, descontraídas, dinâmicas e vigorosas, apoiadas em guitarras ricas em linhas rítmicas cerradas e cortantes, mas também cheias de balanço, uma secção rítmica elástica e eficaz, subtis apontamentos de teclados e uma voz charmosa que cativa de imediato. O resultado é uma música inquieta, com nervo, dançável, plena de estilo e mesmo que não prime pela inovação ou originalidade, deslumbra por aquilo que na sua essência nos transmite, ou seja, óptimas canções com ideias e substância. Os Franz Ferdinand são muito mais do que um mero hype. Oiça-se temas como “Tell Her Tonight”, “Matinee”, “Cheating On You” ou os já referidos “Darts Of Pleasure” e “Take Me Out” e perceba-se porque é que este é um dos grandes álbuns debutantes dos últimos anos e seguramente um registo marcante em 2004. Um daqueles álbuns que certamente irá envelhecer bem com o passar do tempo.

Nuno M. Castêdo
(Mondo Bizarre # 18)