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FUGAZI
NA LINHA DA FRENTE
"The Argument" é o primeiro álbum de originais dos Fugazi em mais de três anos, pondo fim a uma ausência que já estava a deixar saudades. A banda de Ian MacKaye segue o seu caminho, imperturbável e alheia às tendências do momento, oferecendo-nos mais um manifesto de pura excelência.

Os Fugazi surgiram em 1987, na cidade de Washington, sendo o resultado da fusão de elementos de grupos como os Minor Threat, Rites of Spring que, entre outros, ajudaram a construir a cena hardcore norte-americana nos anos oitenta. Desde então, o grupo tem tocado um pouco por todo o mundo e já lançaram sete álbuns, dois EP's e uns quantos singles até ao momento, tendo gerado um enorme culto à sua volta. A política e a música do grupo são respeitadas e admiradas tanto por figuras do mainstream como Eddie Vedder ou Michael Stipe, como um sem número de bandas underground; a saber: total independência artística, ausência de compromisso para com a indústria musical (a banda recusou várias propostas de "majors" e continua a gravar pela Dischord, nunca gravaram vídeo-clips, recusam-se a vender merchandising e mantêm preços baixos na venda de bilhetes de concertos e nos discos), e uma forte consciência social visível nas letras ou nos vários concertos de beneficência que organizam regularmente.

Musicalmente, o eclectismo dos Fugazi vai desde o hardcore até ao reggae-dub, passando pelo funk ou o pós-punk inglês (Gang Of Four, etc), sendo difícil destacar discos numa obra toda ela brilhante. Álbuns como "Repeater"ou "End Hits" estão destinados a fazer história. Ao vivo, a banda revela todo o seu poder magnético, como alguns privilegiados puderam testemunhar no concerto que deram em 1995 em Lisboa. A impressionante cumplicidade em palco entre os quatro músicos cria momentos mágicos de comunhão com a audiência, num ritual em que o crescendo emocional conduz a uma experiência libertadora e imprevisível.

"The Argument", o novo álbum, é mais um espantoso disco em que somos seduzidos pelos ritmos vibrantes de Brendan Canty, a solidez do baixo de Joe Lally, e as guitarras angulares (mas também melódicas) e vozes desconcertantes de Guy Picciotto e Ian MacKaye. O fascínio e a força desta música residem na combinação de violência e lirismo, raiva e ternura ou simplesmente na beleza da expressão pura e fluída dos sentimentos e emoções. Este é talvez o trabalho mais diversificado que o grupo já gravou, consolidando uma visão musical muito particular, em que as fronteiras do rock são forçadas até ao extremo, e onde a imaginação e o gosto aventureiro pela experimentação consolida os Fugazi como um exemplo notável de autenticidade, passeando o seu talento através de uma ética verdadeiramente punk-rock, mas sem preconceitos. Jem Cohen, realizador do filme "Instrument", que documenta os primeiros doze anos de carreira dos Fugazi, sintetiza nas "liner notes" que acompanham a fita o espírito da banda: " There have been many times when they played where it seemed that a good and dangerous trance descended on them in the room. And sometimes, through cameras and edit machines and the drawn out means of filmaking, I had hopes to travel with them to that strange place where words, alone, fail".

Nuno M. Castêdo
(Mondo Bizarre # 9)