GUIDED BY VOICES
VERDADES CÍCLICAS
O processo de maturação dos Guided by Voices assemelha-se ao envelhecimento de um bom vinho. "Universal Truths and Cycles" é o regresso à autonomia, mas não possui uma linha de narração unificadora que permita compreender o leque cerrado de canções que compõem o disco.
Formados em 1985 em Dayton no estado de Ohio, os Guided by Voices são peregrinos do indie rock liberados da obscuridade mediática com a edição de "Bee Thousand" quase uma década depois. O álbum foi objecto de uma ampla distribuição assegurada pela Matador Records e significou para a banda a mais prolongada exposição da carreira. Em consequência disso, subiram ao palco secundário do Lollapalooza em diversas ocasiões e o vídeo de 'I Am a Scientist' passou a integrar o "airplay" da MTV. A notoriedade que foram agenciando nos circuitos em que se moviam (e fora deles) passou pela manifestação de apreço em várias frentes, designadamente da parte de Thurston Moore (Sonic Youth) e Kim Deal (Pixies e The Breeders). Contudo, conscientes do perigo de deterioração da arte por uma sublevação do ego, os Guided by Voices não descuidaram o seu culto à divindade pagã da produção minimalista. De facto, a deglutição do néctar que produzem faz-se a partir da combinação de uma pop áspera e de uma sensibilidade radicada em técnicas de baixo relevo artístico. Com uma formação das mais mutáveis da história - acredita-se que gravaram 10 álbuns com 51 "lineups" diferentes - os Guided by Voices têm em Robert Pollard a confluência da criatividade na composição e da liderança no interior da banda. Segue-se "Alien Lanes", trabalho fervorosamente acolhido pela crítica e que serviu de força impulsionadora para a primeira digressão norte-americana em larga escala. Em 1996, Pollard invocou algumas das suas musas para a estruturação de um álbum a solo. "Isolation Drills" de 2001 ostenta arranjos polidos, invulgares no historial do projecto, e que ficaram a dever-se ao desempenho cromático de Rob Schnapf.
"Universal Truths and Cycles" é um sopro de erudição artesanal e a libertação das amarras corporativas da TVT Records, etiqueta pela qual editaram o disco do ano passado, para a Matador. O som está mais compacto, mais centrado na estrutura da canção. Nutrida por uma infecciosa textura lírica, a música deixou de ocupar uma posição ambígua na totalidade da canção - as guitarras planam e justapõem-se de uma forma orquestrada, apenas galgando a margem em 'Back to the Lake', 'Cheyenne' e 'Everywhere With Helicopter'. A voz sofre distensões seguras, ajuizadas segundos antes da sua metamorfose. 'The Weeping Bogeyman' é uma saliência cadenciada e harmoniosa que não chega a impressionar, mas que condensa as reentrâncias íntimas disseminadas ao longo do álbum. 'Skin Parade' é uma grandiosa ode à transpiração dos corpos e à flacidez do espírito, que só viria a ser retomada um pouco mais à frente em 'Love 1'. Em 'From a Voice Plantation' escutam-se as diferentes vozes narrativas que atravessam o espaço audível do disco. A "Universal Truths and Cycles" fica a faltar uma coesão unificada, uma malha condutora da narrativa sónica capaz de estruturar as canções e aspirar à máxima da conceptualização.
Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 12)
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