GOMEZ
CALEIDOSCÓPIO POP
"In Our Gun" marca o reencontro, após dois anos de ausência no que respeita a edições de originais, dos Gomez com todos aqueles que os reconheceram como uma das formações capazes de renovar o cenário musical britânico. Um verdadeiro caleidoscópio de sons onde os códigos da pop se aliam numa refrescante ousadia estética.
Quando, em 1997, os Radiohead editam "OK Computer" e tornam-se num fenómeno de popularidade, acabando por originar o ponto de partida para o fim do reinado da brit-pop. Com o terceiro álbum da banda de Thom Yorke, tudo mudou. A insistência dos grupos associados ao movimento em reciclar os clássicos da pop inglesa (Beatles, Stones, Kinks, Bowie, etc) num processo auto-fágico pouco estimulante, começava a cansar. Em vez de procurarem novas coordenadas que pudessem definir novos caminhos, contentavam-se em revisitar o passado, num gesto algo irritante de auto-celebração da cultura britânica. É então que, aproveitando os ventos de mudança trazidos pelos Radiohead, começa a surgir uma nova fornada de grupos fervilhantes de ideias, decididos a injectar sangue novo no cenário pop. Foi o caso da Beta Band, Clinic ou os Gomez. "Bring It On", o álbum debutante de 1998, constituiu uma das mais agradáveis surpresas dos últimos tempos. Pop solta e descomprometida, em constante "flirt" com as linguagens dos blues e da folk, num saudável e anárquico desrespeito pelas barreiras estilísticas, onde as canções fluíam cativantes e orelhudas.
Seguiu-se o sempre difícil segundo álbum, "Liquid Skin", que embora longe de ser um mau disco, ficou alguns furos abaixo do brilhante álbum de estreia, apesar de nele estarem incluídas algumas das melhores canções do grupo, mas a sensação que prevaleceu foi a de um trabalho desiquilibrado. Cansados de andarem em constantes digressões, os Gomez aproveitam uma merecida pausa para editarem um EP e um álbum compilação de lados B, raridades e curiosidades avulsas.
Depois de uma ausência de mais de dois anos, a banda regressa com "In Our Gun", um regresso em forma, com a vitalidade dos primeiros tempos, sinal de que a banda se encontrou consigo própria. O novo disco dos Gomez rege-se pelos mesmos princípios que fizeram de "Bring It On" um álbum marcante. Numa impressionante multiplicidade de registos e formas, as canções de "In Our Gun" apresentam-se eclécticas e sumarentas, onde diversos estilos musicais passeiam alegremente, convivendo de forma harmoniosa. Optando quase sempre por soluções que evitam o óbvio, os Gomez mostram porque é que são uma das bandas mais criativas do Reino Unido, abrindo portas para a invenção que lhes permite demarcar terreno próprio, abundante em "marcas de autor". Apesar de habitarem o universo das canções (que inevitavelmente, têm os seus códigos e regras), estes rapazes não têm medo de experimentar e a comprová-lo está a utilização agora mais acentuada da electrónica para compôr um cenário de desafio a nível estético. Das belas canções no sentido mais clássico ("In Our Gun", "1000 Times") aos momentos mais electrónicos bem diluídos na habitual vertente mais "blues"/pop da banda ("Detroit Swing 66" ou "Ruff Stuff"), passando ainda por sonoridades devedoras ao dub ("Army Dub"), "In Our Gun" é um muito bom álbum, daqueles que a cada nova audição se descobrem novos pormenores por entre melodias inspiradas, apontamentos de metais, farrapos de electrónica e samples, e tudo aquilo que cabe na imaginação dos Gomez. A não perder.
Nuno M. Castêdo
(Mondo Bizarre # 11)
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