Artigos
GOSSIP
CLAP, CLAP, CLAP
Longe de despoletarem uma revolução e apesar de toda a teoria dispensada, os Gossip são mais um hype cosmético da Kill Rock Stars e “Movement” é o seu último álbum de originais; um composto à base de energia desorganizada num imaginário diletante, que vem reacender o meio e ajudar a fixar tendências.

Os Gossip são, levianamente falando, Nathan na guitarra, em activa reprodução de acordes dos Stooges, Kathy na bateria, a desejar ter nascido irmã de Jack White e Beth Ditto na voz, que de inspiração, fanatismo e quilos a mais se auto proclama como a reencarnação do tórax de Mama Cass, em modo ditadora feminista e defensora de grandes causas. A história da banda começa algures no Arkansas, num dia de calor intenso em que “estavam aborrecidos” e se juntaram para fazer música. Mudaram-se para Washington onde foram apadrinhados pela K Records e em pouco tempo abriram para as Sleater-Kinney e – pasme-se – os White Stripes.

No que seria o seguimento lógico do aclamado “That’s Not What I Heard”, de 2000, ano em que o punk rock e derivados ainda estavam longe de verem a sua propensão por estes lados e de se repercutirem em cortes de cabelo, “Movement” vem superar todas as expectativas a que o EP “Arkansas Heat”, do ano passado, não correspondeu. Este disco orienta-se num sentido absoluto, de acordo com uma ideologia de espaço onde o contexto se concentra no próprio conteúdo e a música, recorrendo a isso como suporte, equivale a uma espécie de prolongamento do lado físico de quem a interpreta. Para lá da verborreia política, artística e lírica de Miss Ditto, que pouco ou nada acrescentam num plano substantivo, mas que em tanto ajudam à sua performance e relação com o público, “Movement” é dotado de uma energia espontânea, pungente, constituindo uma arma eficaz contra a monotonia, proporcionalmente incisiva e extenuante. Temas como “No, No, No”, “Don’t (Make Waves)”, o imediato “Dangerrr” ou mesmo o introdutório “Nite” reafirmam esta máxima, tornando-a quase inquestionável.

É de referir que a carreira dos Gossip vive muito de placo e concertos insólitos. “Movement”, sendo o seu último disco de originais, antecede a edição de “Undead in NYC”, um registo ao vivo de um explosivo concerto da banda na Knitting Factory, em Nova Iorque, em Julho do ano passado que reformula e reúne temas de todos os álbuns anteriores. De resto a produção dos Gossip nunca viu melhores dias, coisa que acaba por influenciar em muito a própria velocidade de assimilação do seu som, que apesar de se parecer na maior parte das vezes com um sub-produto de mil e uma coisas, cumpre realmente aquilo a que a banda se propõe: pôr as pessoas a mexer. Numa altura em que o rock está definitivamente reinstalado, uma guitarra tendenciosa, uma bateria grave, cerrada e uma voz em tom lascivo são elementos mais que suficientes para levarem a efeito tão simples propósito.

Joana de Deus
(Mondo Bizarre # 16)