GRANT LEE PHILLIPS
O Conquistador
No início dos anos 90, os Grant Lee Buffalo surgiram como um dos combos mais interessantes do rock americano. Os quatro álbuns que a banda gravou revelaram um escritor de canções de excepção: Grant Lee Phillips que, agora a solo, editou “Mobilize”, o seu segundo registo em nome próprio.
Para quem acompanhou o percurso dos Grant Lee Buffalo, não é novidade o imenso talento que Grant possui. Álbuns como "Fuzzy" ou "Mighty Joe Moon" continham uma admirável capacidade para contar histórias no formato canções que bebiam inspiração no rock, folk ou country. Se a revisitação da herança musical americana então desenvolvida pelo grupo tinha muito respeito pela tradição, a forma arrebatadora como "rockavam" nos momentos mais eléctricos, tal como nos momentos de maior subtileza, num tom inimista, aliado a uma simplicidade de meios (essencialmente voz, guitarra, baixo e bateria), distanciava o grupo da vulgaridade. A importância do baixista Paul Kimble e do baterista Joey Peters era inegável na química muito especial que o trio possuía, mas a alma da banda era sem dúvida Grant Lee Phillips, tal era a maneira sublime como traduzia um rico leque de emoções e sentimentos em belíssimas canções. Felizmente que, com o fim da banda que lhe deu notoriedade, Grant não se perdeu pelo caminho. "Mobilize" é o seu mais recente trabalho a solo e, após algumas audições, constata-se que o talento não abandonou este músico. Nesta colecção de canções de primeira água, é bem evidente o seu "songwriting" fluído de raiz clássica, investindo em espaços sonoros abertos e arejados, em que a habitual guitarra acústica convide com caixas de ritmo, teclados planantes, pulsantes linhas de baixo e alguma electrónica, conferindo frescura e variedade ao todo. A aposta em terrenos menos familiares é plenamente ganha, como se pode ouvir em "See America" (balada de ritmo preguiçoso próximo do trip-hop), "Mobilize" (onde uma certa ideia de abstracção de cariz electrónico marca presença) ou o minimalista "Like a Lover". A voz encantadora de Grant constrói belas e envolventes harmonias, num álbum que se ouve com agrado de princípio ao fim, sen canções a mais. É sobretudo na primeira metade do disco que se encontram algumas das suas mais tocantes composições de sempre. Atente-se à excelência dos autênticos pedaços de arte que são "Humankind", "Love's a Mystery", "We All Get a Taste" ou o muito pop "Beautiful Dreamers" e a adesão a este confiante regresso de Grant Lee Phillips será garantida. Um grande triunfo artístico!
Nuno M. Castêdo
(Mondo Bizarre # 12)
| | |