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GRUPOS “NOVO ROCK”
Se 2002 foi pautado pela continuação do hype generalizado do rock, com as principais publicações – da música à moda – rendidas aos encantos de bandas como White Stripes, The Datsuns e Yeah Yeah Yeahs, quem anunciava a nova morte do rock em 2003, está, à partida, condenado a engolir essas palavras.

Atacando em cada vez mais vertentes, o rock de 2003 traz consigo não apenas uma série de bandas novas, mas também grupos que apesar de terem uma “carreira” só agora conseguem chegar ao grande público. Das várias listas de bandas a ter em conta em 2003 apresentadas aqui e ali, e depois de alguma investigação, a Mondo Bizarre escolheu alguns nomes que estão (ou poderão vir) a “acontecer” em 2003.

Apesar de estas serem as bandas com mais probabilidades de darem o salto, as nossas escolhas não devem ser tomadas como verdade absoluta, já que muitas outras bandas poderiam fazer parte desta lista. Estes são alguns dos nomes que vale a pena ter em atenção e que, apesar de virem de vários quadrantes, têm em comum a vontade de criar algo novo. Nem que para isso tenham de se socorrer de fórmulas já existentes. Devidamente filtradas, equacionadas, revistas e aumentadas.

RAPTURE (The)
De todas as bandas que aqui faladas, os Rapture são aquela que reúne o maior consenso. Arriscaria mesmo dizer que são a banda mais “quente” do momento. A tal “next big thing” que faltava a 2003. Com um percurso relativamente irregular em termos de edições, com discos espalhados em várias editoras, foi a partir da relação com a DFA (pertença dos produtores James Murphy e Tim Goldsworthy, e casa dos Black Dice, LCD Soundsystem, entre outros, que a sonoridade dos Rapture se começou a aproximar da música mais dançável. “Echoes” (DFA), o álbum que os Rapture vão editar este ano é um dos discos mais aguardados de 2003. Para além de “House Of Jealous Lovers” e “Olio”, editados anteriormente em single, “Echoes” reserva-nos outras surpresas, como o intercalar de temas dançáveis (“I Need Your Love”, “Killing” ou “Sister Saviour”) com temas introspectivos (“Open Up Your Heart”, “Love Is All” ou “Infatuation”), evitando a monotonia e apostando no desafio dos nossos sentidos. “Echoes” não faz dos Rapture os novos Happy Mondays, como afirma o NME, se tivermos em conta tudo o que está por detrás da banda de Manchester. A fórmula dos Rapture é diferente, tentando aproximar a pop das pistas de dança com a ajuda de ritmos dançáveis. “Sister Savior”, um dos melhores temas de “Echoes” é já um dos grandes temas do ano. Em plena digressão americana, falámos com o baixista Matt Safer, antes de um concerto na mítica sala Metro, de Chicago.

“Echoes” está pronto desde Agosto de 2002 mas ainda não foi editado...
Nós acabamos o álbum antes mesmo de termos tratado de qualquer outra questão como editora, etc. Até a nossa relação com a DFA estava baseada apenas no facto de estarmos todos entusiasmados em fazer um disco. Não estávamos preocupados com as questões contratuais ou legais. Esta demora tem mais a haver com o facto de termos estado a tentar encontrar a melhor solução, e a melhor maneira de editar o disco, do que com outra coisa. Queremos fazer algo interessante, e não apenas limitarmo-nos a editar o disco.

Toda esta atenção sobre o disco antes de o mesmo ser editado não será prejudicial para a banda?
Mau para a banda seria se não tivéssemos um bom disco a sair, que pudesse suportar toda esta atenção que estamos a receber. Estamos todos confiantes que temos um bom disco pronto e não queremos adiar a edição mais do que o necessário. Compreendo que possa criar alguma ansiedade nas pessoas, mas não é algo que possamos controlar. Neste momento o álbum está previsto sair no final do Verão. Por isso já não falta muito.

Para uma banda americana qual é a importância de pertencer à cena de Nova Iorque?
A mudança para Nova Iorque foi um passo importante para a banda pois conhecemos a equipa da DFA e pudemos gravar com eles. Nesse sentido a importância de Nova Iorque foi grande, mas não foi pelas razões que as pessoas esperam que fosse. É uma cidade fantástica, mas não acredito que pelo facto de estarmos perto de bandas como os Interpol, ou os Yeah Yeah Yeahs, essas bandas tenham influenciado grandemente os Rapture.

A identidade dos Rapture está intimamente ligada à DFA e aos produtores James Murphy e Tim Goldsworthy. Como é que a vossa colaboração começou?
Nós demos um concerto em Nova Iorque e o James Murphy foi a esse concerto porque um amigo comum lho recomendou. No final convidou-nos para irmos ver o estúdio da DFA. Houve uma grande empatia entre nós, e como eles têm um estúdio fantástico decidimos experimentar trabalhar com eles. Naquela altura, no Inverno de 2000, o James e o Tim ainda não tinham gravado bandas, com excepção da banda sonora de um filme e do disco do David Holmes. Mesmo o disco dos Radio 4 foi gravado depois.

Nessa altura já estavam a dar um ar mais dançável à vossa música?
Nós já estávamos nessa direcção, mas trabalhar com eles fez com que as coisas se tornassem mais claras. Tornou-se mais fácil entrar nesse campo, porque eles tinham algo de novo para trazer para a nossa música. Não é que nós estivéssemos a fazer uma coisa e eles a alterassem por completo. Pelo contrário, entenderam-nos tão bem que tornaram a nossa música muito melhor ao acrescentarem beats de dança. Como partilhávamos objectivos e ideias comuns, pudemos trazer diferentes elementos para a gravação de maneira a facilitar o trabalho de ambas as partes.

O que pensam quando vos tentam catalogar como sendo os novos Happy Mondays ou vos catalogam de art-punk, dance-punk, etc?
Isso diverte-nos. É interessante ver o que as pessoas vão inventar a seguir e com quem nos vão comparar. Porque não estamos a tentar ser ninguém a não ser nós próprios. Nós não levamos esse tipo de comparações muito a sério. A determinada altura as pessoas vão parar e perceber que temos a nossa própria identidade. De qualquer maneira é sempre bom ver a perspectiva que as pessoas têm da nossa música, sejam elas boas ou más.

Quando estavam a compor para este disco, tinham a ideia de fazer um disco de dança ou um disco dançável?
Eu diria um disco dançável. É uma questão difícil, porque apesar da maioria do temas serem dançáveis existem alguns que não o são. Penso que as coisas foram acontecendo e acabaram por resultar assim, sem um plano predefinido à partida.

O tema “House Of Jealous Lovers” pode ser visto como ponto de viragem no percurso da banda?
Sim, esse tema mudou muitas coisas. Especialmente a maneira como as coisas aconteceram a partir daí. Quando uma vez dissemos que nunca iríamos fazer outro "House Of Jealous Lovers", não queríamos dizer que nunca iríamos escrever um tema tão bom, antes que queríamos evoluir e não ficar presos a essa fórmula.

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!!!
Já lhes chamaram de tudo: exclamation points, chic chic chick, pow pow pow ou uhuhuh. Não admira, pois com um nome destes é difícil arranjar uma definição acertada. No entanto a banda avisa que qualquer que seja o nome que se lhe queira dar, deve ser composto pela repetição de três sons iguais. Editado originalmente em 2000 pela GSL. O álbum “!!!” só recentemente chegou à Europa com a chancela de elementos dos Out Hud, banda com quem partilham 3 elementos. Conotados com o movimento pós-punk ou punk-funk, os !!! vão para lá dessas etiquetas e fazem música apelativa que ultrapassa as barreiras da nossa imaginação. Quando falamos nos !!! falamos de música dançável, não de música de dança. É impossível ficar impassível ao som de um secção rítmica tão poderosa como esta, que só encontra paralelo nos A Certain Ration ou Pig Bag. Temas longos e hipnóticos que nos fazem suar para acompanhar os ritmos demoníacos que debitam. Para breve apontam a edição do single “Me And Giuliani Down By the Schoolyard” através da Warp, que para além do tema título, incluiu uma revisão de “Intensifier”, incluído no álbum de estreia. Serão mais dois temas que levarão as guitarras às pistas de dança sem que estas esvaziem de imediato...

BATON ROUGE (Les)
Apesar de não serem propriamente novatos os Les Baton Rouge (agora cada vez menos “as”) podem colher alguns dividendos do “ano Yeah Yeah Yeahs”. Com o novo álbum, “My Body – The Pistol” (Elevator Music), a sair, e depois de mais uma digressão americana (onde não faltou um concerto no mítico CBGB’s), só lhes falta mesmo a oportunidade de se mostrarem em Londres. Com um pouco de sorte podem estar no sítio certo na hora certa. A julgar pelos dois temas que a banda colocou no seu site para descarregar (“Chole Yurtz” e “Somersault”), a produção do mestre Tim Kerr (visionário do garage rock e impulsionador de bandas como Monkeywrench, Big Boys, Lord High Fixers, The Now Time Delegation) era o elemento condutor que faltava entre as ideias da banda e o produto final. Os Les Baton Rouge são das poucas bandas portuguesas a perseguir um sonho e a tentar a sorte fora de portas. Se os Parkinsons conseguiram alguma atenção pelos seus concertos incendiários e polémicos, pode ser que o termo “portuguese punk band” venha a recolher os frutos dessas sementes. Pelo esforço que Suspiria Franklin e os seus pares têm feito, é uma merecida recompensa.

BEATINGS (The)
Não, não é todos os dias que Kevin Shields – esse visionário do rock, alma criativa dos extintos My Bloody Valentine e produtor dos Primal Scream –, se digna a trabalhar com uma banda. Ainda por cima uma banda nova como os Beatings. Dizem que alguns dos elementos da banda, disfarçados de carpinteiros ajudaram a construir o estúdio de Shields e aí se tornaram seus amigos. Os Beatings pertencem a uma nova geração de bandas britânicas mais viradas para o rock do que para a pop. “Bad Feeling” (Fantastic Plastic) é uma excelente resposta à invasão do território britânico por hostes de bandas americanas, australianas, neozelandesas ou escandinavas. De guitarras em riste estão dispostos a defender o seu território com unhas e dentes com temas regados a querosene com o único objectivo de incendiar os corações de todas os que dispensarem 10 minutos para ouvir “Bad Feeling”. Há muito que não se ouvia rock assim vindo de Inglaterra...

BLACK LIPS (The)
A Bomp!, e as suas subsidiárias, estão mais vocacionadas para a edição de compilações (Pebbles, English Freakbeat, etc) e de reedições de discos clássicos de punk e de garage rock (Iggy Pop, Dead Boys) do que propriamente para a aposta em bandas novas. Salvo raras excepções, não é muito comum encontrar-se uma banda nova no seu plano de edições. Talvez por isso a edição de “Black Lips!” seja motivo para celebração e para apontar os ouvidos à estreia desta banda de Atlanta. Misto de génios e de loucos, fazem vibrar as fundações dos prédios que albergam os clubes que os deixam tocar. Ao rock primitivo acrescentam uma certa dose de caos, necessária para que tudo faça sentido.

BLOOD BROTHERS (The)
Apesar dos Blood Brothers serem bastante novos “Burn, Piano Island, Burn” (Artist Direct) é já o terceiro álbum deste quinteto de Seattle. Os Blood Brothers são parte de um grupo de músicos decididos a mudar os conceitos de música extrema, utilizando e distorcendo as regras do punk e do hardcore, para criar algo mais além. Avant-hardcore talvez... Não é todos os dias que neste estilo de música se cruzam duas vozes poderosas com xilofones, pianos e guitarras acústicas sem que o resultado soe a deja vu. Se as referências são necessárias, é possível atirar para o mesmo saco Refused, The Icarus Line, Lightning Bolt ou Snapcase, também eles companheiros de luta na constante quebra das convenções e na tentativa de fazer com que um género estagnado se torne novamente em algo excitante e novo. Capazes de agradar a públicos tão distintos como fãs do hardcore, consumidores de música experimental ou de música pop, é fácil perceber porque são equitativamente venerados nas páginas da Alternative Press da Wire e do NME. Numa entrevista Johnny Whitney, um dos vocalistas dos Blood Brother, afirmava que: “quando vamos em digressão, somos sempre os mais estranhos. Quando participámos na Oops! Tour (com os Lightning Bolt, The Locust e Arab on Radar) éramos a banda mais convencional, mas quando actuámos num festival de hardcore em Nova Iorque, obviamente que éramos os mais esquisito. Mesmo quando andámos na estrada com os Glassjaw as pessoas achavam que éramos invulgares”. Quer isto dizer que os mais conservadores terão alguma dificuldade em aceitar a revolução sonora que os Blood Brothers estão a levar a cabo, combatendo a inércia e minando o terreno por onde passam.

DARKNESS (The)
Estranhamente, ou talvez não, os Darkness estão a varrer as tabelas de vendas de singles e as rádios inglesas (BBC Radio 1 incluída) com “Get Your Hands Off My Woman” (Must... Destroy!!), um tema que nada tem a ver com o rock que a imprensa britânica tanto tem promovido. São uma espécie de cruzamento entre Kiss (sem pinturas!...) e Thin Lizzy, com o vocalista Justin Hawkins, famoso pelas suas roupas extravagantes, a mostrar-se como uma verdadeira rock star em potência. Os Darkeness podem ser os grandes xungosos do ano, mas depois de ganharem a atenção do público e da imprensa, conseguiram suscitar a atenção das grandes editoras que neste momento lutam pela assinatura desta banda de Suffolk. O álbum de estreia é esperado para breve, mas a julgar pela febre que têm gerado, não será de estranhar que um dia destes comecem a aparecer nas capas das revistas... Ainda assim, xunga ou não, “Get You Hands Off My Woman” é uma excelente “feel good song” para ouvir todos os dias de manhã, antes de enfrentar o rebuliço da cidade.

DEATH FROM ABOVE
Tal como os Lightning Bolt, os canadianos Death From Above são um “power duo” e assentam a estrutura dos seus temas apenas na secção rítmica. No entanto aquilo que ouvimos em “Heads Up” (Ache Records) está mais perto da música rock convencional do que do trabalho dos Lightning Bolt. A grande diferença reside na abordagem dos temas e na colocação da voz. Em pouco mais de treze minutos os Death From Above desmontam seis temas rock e transformam-nos em seis poderosas imagens de uma realidade distorcida. Utilizando alguns samples na introdução de cada tema, é curiosa a maneira como ultrapassam a economia de meios sem caírem em peças demasiado cruas, antes construindo pequenos artefactos de “fácil” audição. Drogas, amigos perdidos e prostitutas são alguns dos tópicos de que falam as suas letras, debitadas por uma voz intensa, na maioria das vezes filtrada por um vocoder ou por um pedal de distorção. Há quem diga que soam como os Stooges possuídos por mil demónios, com um pé no acelerador. Definição que não anda muito longe da verdade...

EL GUAPO
Os El Guapo e seu álbum “Fake French” (Dischord) facilmente passariam despercebidos se não tivessem sido aconselhados por uma daquelas pessoas em que confiamos quando nos dizem: “vais gostar deste disco, é impossível chegares ao fim sem teres a vontade de dançar”. De outro modo, mesmo fazendo parte do catálogo da Dischord, seria difícil ouvirmos um disco de uma banda com um nome tão horrível. “Fake French” não é exactamente um disco de dança mas revela-se impossível não abanar o corpo ao som de alguns dos seus temas. Os El Guapo pertencem à categoria dos “não novatos” o que permite que tenham uma abordagem do pós-punk e do electro rock mais pessoal. Discreto nos arranjos, o grupo tem uma visão curiosa da canção pop e sem ser brilhante logrou editar uma obra consistente e variada, vagueando entre o electro rock e a pop de guitarras, embrulhando cada tema num sentido de bom gosto apurado. “Fake French” merece atenção redobrada pela maneira como entrelaçam as várias vertentes da sua música, criando uma obra diversificada e inimiga da monotonia, onde a cada tema vamos descobrindo pormenores que ficaram escondidos nas anteriores audições. Apesar do nome os El Guapo são uma banda a reter e a descobrir com urgência. Convêm investigar além de “Fake French”, e a mergulhar na discografia anterior, para se perceber de onde os El Guapo vêm e para onde vão.

GLASS CANDY AND THE SHATTERED THEATRE
Enquanto os Yeah Yeah Yeahs gozam do estatuto de estrelas pop e, discretamente, poliram o seu som no álbum de estreia, aproximando por arrasto a voz de Karen O à de Siouxsie, os Glass Candy And The Shattered Theatre surgem em 2003 com o álbum "Love, Love, Love", um disco de onde a sujidade não foi removida. Depois de algumas aventuras discográficas em formato reduzido, o trio liderado por Ida No e Johnny Jewel afirma-se como o “real mackoy” do glam punk vanguardista. Ida No é a rainha da festa. Tal como Karen O, tem uma imagem forte e uma voz que tanto pode ser sensual como incómoda, mas sempre muito carismática. Com um pouco de Suzy Quatro, Blondie, Jennifer Herrema (Royal Trux) ou Kathleen Hannah (Le Tigre), Ida No é séria candidata ao lugar de dama de honor glam punk. Em pouco mais de 25 minutos, ecoam pelos nossos ouvidos a voz de Ida No e os riffs de Johnny Jewel, afinal a força criativa que nos faz curvar ao som de “Hurt”, “Love Love Love” ou “Crystal Migraine”. Em ano de confirmação dos Yeah Yeah Yeahs os Glass Candy And The Shattered Theatre podem ser mais uma “agradável” alternativa. Numa comparação surrealista, se os Suicide tivessem uma mulher a cantar e usassem guitarras soariam como os Glass Candy and The Shattered Theatre.

HUNCHES (The)
Durante anos, o facto de uma banda fazer parte do catálogo da Crypt Records era sinónimo de qualidade. Esses eram os “escolhidos” e os destinados a reinar no pequeno grande mundo do rock’n’roll de garagem, sujo q.b. mas pleno de vitalidade. Foi essa a casa que fez detonar o fenómeno Jon Spencer Blues Explosion e que, entre muitos outros, deu a conhecer os Oblivians, Gories, Thee Headcoats. Foi por essa cartilha que desde muitos novos os The Hunches estudaram a lição, depois de terem caído num caldeirão de poção mágica – qual Obelixes do Rock – feita à base dos melhores ingredientes: Electric Eels, Birthday Party, Pussy Galore, Gun Club e The Saints. Os The Hunches são, assim, um cocktail Molotov pronto a explodir. Energia e criatividade em estado bruto capaz de nos por os cabelos em pé. Quando a cada minuto se aposta numa nova sensação do rock de garagem os The Hunches podem muito bem ser a “next big thing” envenenada. Envenenada porque dificilmente conseguirão a projecção que outras bandas gozam. “Yes. No. Shut It”, a estreia em formato alargado, surge agora pela mão da In The Red - espécie de Crypt Records em formato contemporâneo – com a frase “material altamente inflamável”, implicitamente escrita por toda a embalagem. Temas curtos, que não primam pela facilidade, mas que nos enchem as medidas, não aconselháveis a todos aqueles que acham que gostar dos Strokes e dos White Stripes é gostar de garage rock. Para esses sugere-se a busca de uma qualquer banda “light”.

PINK GREASE
Excêntricos quanto baste e tremendamente interessantes são os Pink Grease. E se o nome é bizarro, a música não fica lhe atrás. Com o segundo single em vinil de 12 polegadas “Soul Paco” editado pela Horse Glue (editora de Barry 7, dos Add N to X), os Pink Grease estão cada vez mais à beira de conquistar o mundo armados de batons e néons. Sexo, morte e amores não correspondidos são alguns dos temas que cantam e que assentam como uma luva a este colectivo misto de New York Dolls geneticamente cruzados com os Joy Division, depois de uma orgia de ácidos. A conceituada The Face já os convidou para uma das suas festas e enquanto não arriscam uma digressão em nome próprio, têm acompanhado na estrada bandas como os Add N To (X), Liars, The Faint, Suicide e Ladytron. Até à saída do álbum “All Over You”, os três temas de “Soul Paco” funcionam como a dose diária para a cura do mau humor. Depois do choque da primeira audição vem a sensação de que os Pink Grease estão a minar o nosso cérebro. A culpa é de “Soul Paco”. E seguimos em direcção às estrelas...

SCENE CREAMERS
Quem, como eu, respeita os Nation Of Ulysses, venera os Make Up, riu com David Candy e se deixou contagiar pelos Weird War, não terá problemas em afirmar que Ian Svenonious é um génio. Os Scene Creamers são a sua nova aventura, acompanhado uma vez mais pela elegantíssima Michelle Mae e por Alexander (antigo companheiro dos Make Up, actualmente nos Golden). “I Suck On That Emotion” (Drag City) representa a formação mais próxima dos Make Up até agora encetada por Svenonious. Musicalmente, os Scene Creamers reúnem o melhor dos Make Up (gospel, ye ye) com o melhor dos Weird War (free rock) e juntam-lhe uma grande e omnipresente ironia. Como já quase ninguém acredita que Svenonious ressuscite os Make Up, resta apenas acreditar que o James Brown branco tenha encontrado de novo o caminho da luz e que os Scene Creamers não se fiquem apenas pela edição deste álbum. O mundo precisa de música assim: com atitude e tremendamente sexuada.

stellastarr*
Os stellastarr* (assim mesmo, com letras minúsculas e um asterisco no final...) pertencem a uma geração de músicos empenhada em reavivar a nossa memórias para uma das bandas vanguardistas mais importante de todos os tempos: The Cure. Tal como os Hot Hot Heat, os stellastarr* mostram até que ponto a banda de Robert Smith ocupou a aparelhagem dos seus elementos. E tal como no caso dos Hot Hot Heat, os stellastarr* fazem com que essa influência não passe disso mesmo, uma influência. Apesar de terem nascido numa universidade em Brooklyn, Nova Iorque, podiam ter vindo de um qualquer subúrbio britânico. Ainda à procura de uma identidade própria, conseguiram com a ajuda de Tim O’Heir (Sebadoh, Dinosaur Jr) concretizar três pequenas peças de um puzzle onde encaixam elementos do brit pop, new wave e pós-punk. É essa curiosa fusão que se ouve no EP “Somewhere Across Forever” (Tiswas Records), editado em finais de 2002. Onde guitarras melódicas, harmonias vocais e uma secção rítmica competente são as ferramentas, com que constroem a sua música. Para breve prometem o álbum de estreia, mas até lá uma digressão britânica com os Raveonettes pode vir a dar os frutos esperados.

STILLS (The)
Reza a história que estes canadianos residentes em Nova Iorque foram apontados pelos Interpol como uma das suas bandas favoritas. Não admira, por isso, que os The Stills transpirem, tal como os Interpol, “anos 80 a olhar para o futuro”. “Still In Love Song” é uma das mais belas canções que passaram pelos meus ouvidos este ano, misto de Joy Division e Interpol e “Killer Bees” um tema menos exuberante, de contornos planantes. Ambos os temas são de audição obrigatória em www.thestills.net, já que os The Stills ainda não têm qualquer single editado. A julgar pela amostra, e apesar de tenra idade, o grupo mostra já destreza e habilidade na escrita de canções, faltando apenas alguém que lhes mostre o caminho da fama.

THEORY OF RUIN
A informação sobre os Theory Of Ruin é escassa. Mas o que interessa saber é que este é mais recente projecto de Alex Newport, a força motora por detrás dos Fudge Tunnel (banda que durante os anos 90 assinou alguns dos discos de “hardcore industrial” mais inovadores) e uma das metades dos Nailbomb (a outra metade era Max Cavalera, dos Sepultura). Com uma carreira na produção (At The Drive In, Mars Volta, Melvins) a ocupar a maior parte do seu tempo, o há muito prometido “Counter-Culture Nosebleed” (Escape Artists) só agora é editado. As referências aos Fudge Tunnel são evidentes, ou não tivesse Alex Newport criado um estilo próprio, mas as composições e a produção ultrapassam as barreiras do tempo e aproximam-se do trabalho desenvolvido por Steve Albini, na maneira como as guitarras e a bateria são gravadas. Riffs arrebatadores, ambientes abrasivos, batidas milimétricas, são alguns dos ingredientes de “Counter-Culture Nosebleed”. O apocalipse está perto. Preparem-se!

WHIRLWIND HEAT
Nome estranho para a primeira banda escolhida por Jack White, dos White Stripes, a fazer parte da sua editora, a Third Man Records. Se muitos esperavam uma banda semelhante aos White Stripes, os Whirlwind Heat não podiam ser mais díspares. Há muito que este nome figura na página de links do site dos White Stripes, com a estranha história de que na noite em que tocaram juntos pela primeira vez, a gerência do clube obrigou os Whirlwind Heat a tocar demasiado cedo, ao que Jack respondeu com um pedido estranho: que a banda tocasse novamente depois dos White Stripes para que toda a gente os pudesse ver. Este trio do estado do Michigan resume os seus instrumentos a uma bateria, um baixo e a um sintetizador Moog. Assim equipados criam temas curtos (de pouco mais de dois minutos) mas furiosos, apaixonados, estranhos, perturbadores e corrosivos. Produzido por Jack White, gravado por Brendan Benson e misturado por Dave Friedmann dos Mercury Rev, “Do Rabbits Wonder?” (Third Man Records) é um disco peculiar, onde os nomes dos temas foram substituídos por nomes de cores.

WITNESSES (The)
Bem, uma banda com um vocalista capaz de rivalizar em termos capilares com Rob Tyner dos MC5, e com um nome igual à orquestra que acompanhava Sam Butera deve sempre ser levada em conta. Para não variar, foi Nova Iorque que os viu nascer, mas podia muito bem ter sido Detroit pela maneira como cruzam o rock com a soul. O espírito dos MC5 e de Ike & Tina Turner andam por aqui a par dos Rolling Stones (por alturas de “Exile On Main Street”). Para já, contam apenas com o auto-editado EP “Stop Pretending” (The Witnesses) como cartão de visita. “Stop Pretending” é o grito de libertação dos Witnesses, destilando emoções enquanto nos fazem abananar as ancas, muito ao estilo dos Mooney Suzuki, de onde Will Rockwell e Darien Zahedi transitaram. Apesar de odiarem o termo “retro”, o certo é que é difícil encontrar na música dos Witnesses referências à música actual. Com concertos incendiários cada vez mais cheios, os Witnesses podem vir a ser a nova sensação do garage rock nova-iorquino. Pelo menos canções, imagem e atitude não lhes faltam.

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X-WIFE
Podiam ser uma banda qualquer mas não são. Se ao nome da banda acrescentarmos que é a banda de João Vieira, mais conhecido como DJ Kitten, as coisas tornam-se mais claras. Com um single “Rockin’ Rio” (Nortesul) a saltar para os escaparates este mês são a grande surpresa de 2003 no que respeita a bandas portuguesas. Misturam guitarras com sintetizadores analógicos e o resultado é um electro-rock contagiante. As imperfeições a nível de produção são compensadas pela frescura e pela maturidade dos temas, dando bons indícios para o álbum de estreia. “Rockin’ Rio”, “Eno” e “We Are” são o “som do agora”, quando tanto se fala de do rock e do electroclash. Poucas bandas portuguesas lograram estar a fazer a música certa no tempo certo. Os X-Wife conseguiram esse feito. João Vieira contou-nos como tudo começou.

Como é que os X-Wife apareceram?
A banda existe há cerca de um ano. Eu voltei de Londres em Janeiro de 2001, mas antes de ir para lá já tinha tido outras bandas. Umas delas eram os Centerfold, nos quais era só vocalista. Fazíamos brit pop na linha dos Supergrass e dos Blur. Em Londres fiz outra banda com o mesmo nome porque tenho um pouco a mania de aproveitar os nomes de umas bandas para as outras. Mas esses segundos Centerfold eram uma banda muito diferente. Mais glam rock dos anos 70, muito ao estilo do David Bowie, dos Roxy Music ou dos Stooges. No que respeita aos X-Wife eu nunca quis procurar músicos para tocar comigo colocando anúncio no jornal, ou pedindo ao amigo do amigo, que apesar de não ser a minha onda até tocava bem guitarra ou bateria. A ideia foi diferente. O nosso baixista, o Fernando (Sousa) tocava guitarra noutra banda, e depois de falarmos muito sobre música e porque ele também estava insatisfeito a nível estético com essa banda começou a tocar comigo. O Rui (Ferreira) conheci-o no Mercedes porque ele estava com uns óculos amarelos à Jarvis Cocker. Eu já estava um bocado com os copos e acho que me meti com ele. Mais tarde acabamos por começar a falar sobre música e ele disse-me que também tocava e a ideia partiu daí. Eu tinha cerca de 25 a 30 músicas em mini-disc que tinha gravado em Londres só com uma guitarra acústica. Começamos por discutir como iríamos fazer as coisas, quais as influências, etc. Eu até lhes passei um CD com algumas bandas para lhes dar uma ideia de como gostava que a banda soasse. Nesse CD estavam, entre outros, os Rapture, Clinic, Silvester Boy, Tuxedomoon, Add N To (X) e Von Bondies, mas a partir do momento em que começamos a trabalhar nos temas borrifámo-nos completamente para a história das influências...

Do glam ao electro-rock foi um passo...
Eu acho que está tudo ligado. Muita gente que gostou de rock em meados dos anos 90 evoluiu para o electro. O Stuart, que fazia o Club Kitten comigo em Londres teve a mesma evolução a nível de gostos...

O nome X-Wife também veio de Londres?
Sim, trouxe o nome de lá. A certa altura comecei a tocar com uma guitarrista e éramos para formar uma banda chamada Ex-Wife, mas nunca passou de alguns ensaios acústicos com um quatro pistas feitos em casa. Quando cheguei a Portugal tinha dois nomes na cabeça: X-Wife e Side Effects, mas achei que X-Wife era muito mais forte. Fica mais no ouvido. É um nome “mauzinho”. Quando de fala sobre a ex-mulher fala-se normalmente de uma forma depreciativa. (risos)

Como que aparece a norte sul no vosso caminho? Andaram a mostrar a música a algumas editoras?
Não. Eu e o Pedro Tenreiro tínhamos amigos em comum e acabámos por nos conhecer. Ele apareceu num ensaio e ficou surpreendido porque não estava à espera de uma banda assim. Passados dois meses disse-me que me ia oferecer um contrato discográfico. Isso é algo que eu estava à espera de ouvir há cerca de 7 ou 8 anos. Mesmo em Londres, houve pessoas que gostaram das bandas por onde passei e que se mostraram interessadas mas no final não dava em nada.

A ideia de começarem por um single é tentar fazer como se faz lá fora? Primeiro mostra-se a banda e depois é que se edita o álbum?
Só há pouco tempo é que me dei conta que os singles não são muito habituais em Portugal. Nunca houve um grande mercado para os singles e agora muito menos. Talvez em vinil ainda vendesse alguma coisa, mas hoje em dia com os CD singles seja pior. Em Londres é muito diferente. As bandas continuam a editar singles em vinil que são vendidos por dois euros, porque é uma boa maneira de mostrar as bandas. O nosso single, mais do que um disco com lado A e lado B é uma apresentação da banda porque não queríamos estar à espera do álbum. Demorámos quatro meses a gravar os temas porque o tipo do estúdio não funcionava, e muitas vezes cancelava as sessões de gravação. Isso não faz sentido. Nós queríamos por alguma coisa cá fora para passar na rádio, para começar a ganhar público, ter alguma exposição nos media. E depois quando o álbum sair completa-se o ciclo. Isso é um pouco a escola que eu trago de Inglaterra. De ver como as bandas funcionam. Primeiro editam singles e só depois sai o álbum.

E até quando temos que esperar pelo álbum?
Em relação ao álbum, estamos a pensar começar a gravar em Julho para sair antes do final do ano. Temos estado a trabalhar bastante nos temas porque queremos que seja um bom disco. Não queremos ter dois ou três temas bons e o resto ser para encher. Se uma música não está ao nível das outras não a gravamos. Queremos ter um disco de lados A. Apesar do single não ter ficado muito bem produzido, já que falta um pouco de força em especial na primeira faixa, achamos que esses temas são bons e vamos incluídos no álbum.

Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 15)