GUIDED BY VOICES
AS VOZES DA DESPEDIDA
Se algum dia tiverem o vosso neto sentado no colo e ele vos pedir que lhe contem uma história, não hesitem: a dos Guided By Voices consegue ser mais excitante que a do Capuchinho Vermelho. Robert Pollard, o homem das mil e uma canções, faz descer o pano na carreira dos Guided By Voices com “Half Smiles Of The Decomposed”, um disco recheado de grandes canções.
O mundo do indie rock é pródigo em histórias de encantar, e a dos Guided By Voices não é excepção. Tudo começou quando, no princípio dos anos 80, Robert Pollard, um professor numa escola de Dayton, Ohio, decidiu começar a escrever canções como quem conta carneiros numa noite mal dormida. Pollard fez-se acompanhar do seu irmão Jim (que mesmo depois de abandonar o projecto continuou a escrever algumas canções), do guitarrista Tobin Sprout e do baixista Dan Toohey (que se juntaram à banda em 1985), para escrever aquela que é uma das mais belas histórias de sempre da música indie. Desta reunião resultaria o primeiro EP dos Guided By Voices intitulado “Forever Since Breakfast”, publicado numa editora indie local chamada I Wanna Records, em 1986. No ano seguinte surge “Devil Between My Toes”, o primeiro álbum do grupo, responsável por algumas pérolas pop devedoras à estética lo-fi que mostravam o génio criativo de Pollard – os Guided By Voices gravaram a maior parte dos seus discos em quatro-pistas baratos, o que limitava obrigatoriamente a sua audiência.
Em 1993, seis anos e alguns discos depois do álbum de estreia, o mundo viu nascer “Bee Thousand”, o primeiro disco resultante do acordo de distribuição que a Scat (editora que publicou “Propeller” e “Vampire On Titus”, em 1992 e 1993 respectivamente) estabeleceu com a Matador e o primeiro a merecer destaque e até mesmo aclamação pela imprensa mais mainstream. Além de ser apontado como sendo o grande clássico dos Guided By Voices, “Bee Thousand” marca presença em quase todas as listas de melhores álbuns de sempre. As mudanças no alinhamento da banda foram-se sucedendo (durante a primeira década de existência, os Guided By Voices contaram com a participação de cerca de quarenta músicos diferentes) e também os discos que, ora com edição da Matador, ora com a com edição da TVT, foram consolidando a carreira da banda até aos dias de hoje.
Na primavera de 2004, Robert Pollard anunciou que “Half Smiles Of The Decomposed” seria o último registo de uma carreira de quase duas décadas pois, e nas suas próprias palavras, está a ficar “demasiado velho para ser o líder de um gang”. Ao contrário daquilo que se podia pensar, “Half Smiles Of The Decomposed” não é um daqueles álbuns que resume toda a carreira de uma banda, nem tão pouco um disco que soa a despedida. Nada aqui parece soar a despedida. Em “Everybody Thinks I'm A Raincloud”, o tema que abre “Half Smiles Of The Decomposed”, as guitarras vão subindo de volume até se perceber que, embora o material de gravação já não seja aquele usado nos primeiros discos, o som cru e a distorção continuam presentes. “Half Smiles Of The Decomposed” estabelece o ponto intermédio entre as sonoridades lo-fi dos primeiros anos e as últimas edições em editoras maiores. Apoiado pelas guitarras resplandecentes, pela percussão forte e pelo baixo latejante, Pollard afirma a sua fé na mudança, nos sonhos e no amanhã. O futuro, esse, é descrito e desejado nas suas palavras: “A miracle cure for my sorrow / The pillars of self-esteem”.
O disco prossegue com a sombria “Sleep Over Jack” por entre guitarras em alvoroço, samples de um diálogo passado e palavras e gritos de angústia: “I Know / You’re Gonna Fuck Up My Makeup / You’re Gonna Make Up My Fuckup”. A bonança volta com a doçura acústica de “Girls Of Wild Strawberries”, um tesouro pop coberto de pó e esperança. “The Closets Of Henry” marca o regresso às guitarras estridentes reluzentes e aos refrões em formato algodão doce e “Tour Guide At The Winston Churchil Memorial” segue-lhe o caminho: o som melífluo das suas guitarras faria nascer um belo dia no mais rigoroso dos Invernos. “Asia Minor” constrói-se de pianos tímidos, percussão em jeito de ritmo cardíaco acelerado mas, embora não passe da marca dos dois minutos e meio – requisito obrigatório de grande parte das canções dos Guided By Voices –, fica aquém dos momentos mais fortes de “Half Smiles Of The Decomposed”. Já perto do fim, “A Second Spurt Of Growth” mostra mais uma vez o lado contemplativo e acústico do grupo enquanto que “Huffman Prairie Flying Field”, o último tema do disco, apaga a luz, por entre as já saudosas guitarras, com uma mensagem: “If That’s What You Want To Hear / Than That’s What I Will Sell You”.
É certo e sabido que nada é eterno. Nem os diamantes. Mas “Half Smiles Of The Decomposed” é um tão precioso como aqueles olhares derradeiros entre dois amantes: significa tudo para quem os tem como seus. Figurará na perfeição, numa prateleira, no final da discografia completa dos Guided By Voices, mesmo ao lado dos últimos discos de todas as grandes bandas. E se algum dia existir um Indie Rock Hall Of Fame, os Guided By Voices têm a sua entrada garantida.
André Tiago Gomes
(Mondo Bizarre # 20)
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