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HEAD AUTOMATICA
ROCK THA SOUND SYSTEM
“Decadence” é o produto da mente fértil de Daryl Palumbo, o vocalista dos versáteis Glassjaw. Contudo, ao contrário do grupo mãe, por aqui não se escuta pós-hardcore, mas sim uma mistura de rock, punk e dancehall. Não hesitem, é das coisas mais viciantes deste ano.

Há discos assim. Podem não ser particularmente inovadores ou conter qualquer golpe de génio mas que encerram em si algo de especial. E que elemento tão importante é esse? A autenticidade e o resultado prático do produto final, associada a um desenrolar de influências mais ou menos notórias, mas que originam um som que só podia, neste caso, pertencer aos Head Automatica. Mas primeiro os antecedentes.

Caso o leitor não saiba, Daryl está habituado a andanças mais pesadas. Co-fundador dos Glassjaw, um dos grupos que partindo do hardcore consegue fazer emergir uma sonoridade bem particular. Juntamente com o seu amigo de escola Justin Beck, Daryl escrevia músicas enquanto andava em digressão com os Glassjaw. Músicas essas que não se ajustavam totalmente no imaginário da banda de Nova Iorque, o que levou ao nascimento dos Head Automatica. Em entrevista ao site Modern Fix, Daryl afirma que embora o futuro dos Glassjaw não esteja em perigo – ele e Justin têm andado a escrever canções – encara os Head Automatica como um grupo a sério e não apenas um mero projecto paralelo.

A energia de Daryl não se fica por aqui pois também está envolvido com EL-P, dono da editora de hip-hop Def Jux Records e autor do recomendável “Fantastic Damage”, num projecto de rock de nome Shoot Frank. “Decadence” conta com convidados como de Dan The Automator, que edita com nomes como Handsome Boy Modeling School ou Lovage sendo também conhecido como um dos mentores do projecto Gorillaz, e Tim Armstrong dos punkers Rancid. A presença de Nakamura, que é responsável pela produção de maior parte dos temas do disco é visível, dando às músicas um toque de dancehall, facto que se pode confirmar simplesmente olhando para nomes de músicas como “Disco Hades II” ou “Head Automatica Soundsystem”, e isso é um dos segredos para a sonoridade dos Head Automatica. "Decadence" é também pontualmente revestido por um background sonoro devedor do hip-hop mais vanguardista, característico de editoras como a já referida Def Jux.

A mistura das influências punk de Daryl associadas ao seu reconhecido gosto por música electrónica e aliadas à experiência de Nakamura como produtor revestem o disco de uma vibração muito especial e particularmente festiva. Já o tema em que participa Tim Armstrong, “Dance Party Plus”, é dos mais straight forward do disco, com uma sonoridade mais pesada, mas como o nome indica, sempre a apelar a um pezinho de dança. A sonoridade dos Head Automatica pode ser descrita como a de uma banda composta por membros dos The Mooney Suzuki e The (International) Noise Conspiracy supervisionada pelo mestre James Brown nos estúdios da Soul Jazz. As referências são do melhor calibre possível e este “Decadence” vai direitinho para o top de discos para abanar-a-anca-enquanto-a-mente-também-se-delícia de 2004.

Pedro Miguel Guimarães
(Mondo Bizarre # 20)