HELLACOPTERS
UM ANO DEPOIS...
... e a história repete-se. Há precisamente um ano, na nossa primeira edição, surgia um artigo sobre a banda que nasceu para salvar a honra do rock europeu: Hellacopters. Na altura tinham acabado de editar "Grande Rock", o seu terceiro longa duração para a White Jazz e agora temos "High Visibility" acabadinho de sair como prato forte do final de 2000.
Em pouco mais de seis anos, os Hellacopters passaram de um mero passatempo do Sr. Nicke Andersson (também conhecido por Nicke Hellacopter ou Nick Royale) enquanto baterista dos death'n'rollers Entombed, para um trabalho a tempo inteiro e, mais do que isso, um caso sério de popularidade deste e do outro lado do oceano, já para não falar da importância na promoção do rock feito na Europa e em especial na Escandinávia.
Se olharmos para trás, facilmente podemos ver que o caminho percorrido pelos Hellacopters foi pavimentado pelos Nomads durante quase vinte anos. Muitas foram as bandas que surgiram e desapareceram sem deixar rasto. Se exceptuar-mos os Hanoi Rocks, Entombed, Kind Diamond ou Yngwe Malsteen, estes mais virados para o metal ou para o hard-rock, pouco ou nada se tinha ouvido falar da Escandinávia em termos rock, com a excepção dos já citados Nomads ou Turbonegro, que, durante este tempo, sempre lutaram contra a maré. De repente, surge um tornado chamado Hellacopters e as coisas mudam de figura. Imediatamente surgem do nada dezenas de bandas, a fazerem rock ou derivados, como se uma mina se tratasse. O filão tem sido enorme e não param de aparecer nomes como Backyard Babies (estes um pouco mais velhos que os Hellacopters, mas cujo sucesso só aconteceu fora da Suécia na era pós-Hellacopers), Flaming Sideburns, Sewergrooves (projecto do baterista Robert Hellacopter), Turbonegro, Euroboys, Gluecifer, Hives, Refused (e agora The (internationl) Noise Conspiracy), Puffball...
Uma questão surge no meio de todo este frenesim: o que é os Hellacopters têm que os demarca dos seus pares? Antes de mais, uma apurada cultura rock, forjada à custa de constantes audições de discos dos MC5, Stooges, Dictators, Jini Hendrix, New York Dolls, Sonic Rendez Vous, entre muitos outros, depois uma atitude punk "in your face", sem medo de ir a todas e de lutar pela banda, dando um litro e meio de suor a todos aqueles que assistem aos seus concertos. Em terceiro têm canções com principio, meio e fim, que podem ser cantadas até debaixo do chuveiro, e a veia de compositor de Nicke parece estar longe de se esgotar. Conseguem alimentar o culto dos fãs com constantes edições em single, espalhadas pelo mundo inteiro (exceptuando Portugal...), levando ao desespero os ferrenhos coleccionadores que lhes queiram seguir o rastro editorial. E no fim de tudo tiveram a sorte de estar no sítio certo, na altura certa e cair nas boas graças de muita gente importante que os tem apoiado ao logo dos anos.
Neste final de 2000, os Hellacopters oferecem uma prenda de Natal antecipada sob a forma de um novo álbum. O título "High Visibility" (escolhido por Mike LaVella, editor da revista Gearhead) acaba por funcionar como uma ironia à nova situação editorial da banda. Depois de três discos para a independente White Jazz, a banda mudou-se de armas e bagagens para a Universal, que obviamente lhes pode proporcionar uma maior visibilidade em termos mediáticos...
Ao contrário do que aconteceu com os discos anteriores, em que as mudanças eram notórias de disco para disco, "High Visibility" é uma aposta na continuidade do trabalho desenvolvido em "Grande Rock", resultando num aperfeiçoamento da fórmula em detrimento de novas experiências. Se da sujidade de "Supershitty To The Max!" passaram para a sofisticação em termos de produção de "Payin' The Dues" e deste para um som mais limpo e não tão pesado em "Grande Rock", para "High Visibility" temas um maior cuidado com as canções e com a produção, aqui entregue em exclusivo a Chips K, deixando a banda de participar nesse processo, como tinha acontecido nos discos anteriores. É também o disco mais "pop", com os ventos a soprarem mais para o lado dos Kiss ou New York Dolls (em termos sonoros, não em visual!) sem, no entanto, descorar os pilares que lhes mantêm a fama. "Toys & Flavours", o primeiro single, é umas das melhores canções que a banda escreveu, e o respectivo vídeo, despido de grandes truques cénicos, faz com que o espectador se concentre apenas na banda e na canção. Aliás, boas canções não faltam aos Hellacopters, que facilmente poderão "aguentar" o álbum na ribalta com uma mão cheia, e não só, de singles.
No fim de contas, uma coisa é certa: os Hellacopters podem-se ter mudado para uma multinacional, mas algo não mudou: a versão em vinil de "High Visibility" tem um tema extra que não aparece no CD, o que só prova que ainda não perderam a integridade nem o amor pelo bom e velho vinil.
Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 5)
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